O Sol está entrando num período de grande atividade. Isso faz parte de um ciclo que se repete a, pelo menos, muitos milhões de anos, e não representa nenhum risco à vida na Terra, nenhuma ameaça ao clima de nosso planeta nem vai produzir qualquer desastre global.

A superfície do Sol, a parte amarela que vemos dele, é chamada fotosfera. Sua temperatura é de cerca de seis mil graus. Manchas escuras aparecem constantemente na fotosfera, produzida por material que aflora à superfície e chega ali um pouco menos quente, com temperaturas entre três mil e cinco mil graus aproximadamente. Diferença entre temperaturas estão correlacionadas a diferenças entre cores e isso é bastante evidente na Astronomia. As regiões menos quentes na superfície do Sol, chamadas manchas solares, parecem escuras por causa da diferença de temperatura. Outro exemplo de cor indicando temperatura está na cor da estrela como um todo: estrelas azuis são mais quentes que estrelas vermelhas.

Esquema da estrutura do Sol: (1) Núcleo, (2) Zona Radiativa, (3) Zona Convectiva, (4) Fotosfera, (5) Cromosfera, (6) Coroa, (7) Mancha Solar, (8) Grânulos e (9) Protuberância [fonte:http://commons.wikimedia.org/wiki/User:Pbroks13

Abaixo da fotosfera, existe uma região chamada zona convectiva, ou zona de convecção. Nessa região, a energia que está percorrendo seu caminho desde o núcleo do Sol passa a ser transportada por convecção, um movimento de um fluido. Vemos convecção na água fervendo, onde partes quentes sobem e partes frias descem. Algo muito semelhante ocorre na zona convectiva de uma estrela.

O Sol não é sólido, como a Terra, e sua rotação não é a de um corpo rígido. Ele gira mais rápido em seu equador e a velocidade diminui em regiões mais próximas dos pólos. Essa rotação com diferentes velocidades é chamada rotação diferencial, e é justamente ela que produz um enrolamento nas linhas do campo magnético do Sol na região de convecção. Se as linhas enrolam além de um determinado limite, elas espiralam, como acontece um elástico comum.

O resultado é uma punção de linhas de campo magnético que ultrapassam a superfície e atrapalham a convecção. Onde as linhas atravessam a superfície o fluxo da energia transportada diminui. Menos energia faz com que a temperatura nesses pontos diminua. Essas regiões, mais frias e com menos energia, onde as linhas de campo magnético atravessam a superfície do sol, são as manchas solares.

A figura abaixo ilustra como a rotação diferencia do Sol provoca torção nas linhas do campo.

Rotação diferencial do Sol torcendo as linhas de campo magnético.

Uma experiência simples com um elástico pode os mostrar como acontecem os loopings magnéticos causados pela rotação diferencia do Sol. Repare como as espirais que surgem no elástico retorcido lembram as estruturas em arcos que observamos se formar na superfície do Sol.

Usei um elástico simples, de uma pasta de plástico, nas fotos abaixo.

 
 
 

Essa é a forma como compreendemos o fenômeno do enrolamento das linhas de campo magnético do Sol e a formação das manchas. A cada cerca de 11 anos o Sol passa por um período de máxima atividade, e todo esse processo se torna mais intenso e acontece em maior quantidade.

As linhas que formam as manchas podem se reconectar umas com as outras e, nesse processo, ocorrem os flares. O vídeo abaixo mostra um flare acontecendo.

Um outro evento que produz liberação de partículas com grandes energias é a ejeção de massa coronal, que normalmente estão associadas a flares, mas podem ocorrer independentemente. O vídeo abaixo mostra um evento de ejeção de massa coronal.

Além das erupções, flares e ejeção de massa coronal, há uma constante de emissão de partículas solares chamada vento solar. Quando essas partículas carregadas chegam na Terra são, em geral, capturadas pelo campo magnético de nosso planeta. Aceleradas para os polos, produzem as bonitas auroras, como na foto abaixo.

Aurora (Fotografia de Daniel Lopez – http://apod.nasa.gov/apod/ap120321.html)

Eventualmente, as partículas carregadas, principalmente as emitidas por flares e ejeção de massa coronal, chegam à Terra com velocidade altas o suficiente para fazer com que elas ultrapassem o campo magnético terrestre. Quando isso ocorre pode haver interferência nas telecomunicações. Tais interferências são apenas temporárias.

Manchas, flares, ejeção de massa coronal e vento solar são o que chamamos de atividades solares. Elas acontecem sempre e apenas se intensificam a cada cerca de 11 anos, quando os enrolamentos das linhas de campo magnético acontecem em maior proporção. Quando as atividades são bastante intensa, dizemos que ocorrem as tempestades solares.

As atividades do Sol são um processo natural, como as ondas do mar, vento, trovões, chuva ou marés.

Absolutamente nenhum risco à vida existe por causa das atividades solares. Pode haver, sim, uma relação entre o crescimento de algumas árvores e o ciclo de 11 anos da atividade solar, e alguns estudos apontam para uma pequena relação também na variação do clima. Mas essas variações climáticas, se existirem, são realmente pequenas o suficiente para não merecerem qualquer cuidado especial. Você deve usar protetor solar e evitar exposição excessiva durante toda sua vida, independente do sol estar dormindo ou em máxima atividade.

E não há absolutamente nenhuma relação entre as atividades solares e terremotos ou tsunamis. Como a entrada do Sol num período de maior atividade está coincidindo com o ano do fim do mundo segundo uma profecia Maia (que não profetizou o fim físico do mundo, mas uma mudança de comportamento da humanidade), os alarmistas de plantão estão felizes. A quantidade de e-mails, textos em blogs e até notícias na imprensa sugerindo algo de anormal no Sol aumentou muito nas últimas semanas.

Mas… não há nada de anormal acontecendo. Ao contrário, seria anormal se o Sol não entrasse em um período de aumento de atividades agora! Lamento ajudar a acabar com a festa dos que esperam a qualquer custo o fim do mundo. Mais uma vez, não vai ser dessa vez.