Alguns detalhes sobre os motivos da nova classificação de Plutão e a falsa idéia de que Plutão atravessa a órbita de Netuno.

A decisão da União Astronômica Internacional (IAU, da sigla em inglês de International Astronomical Union) de criar uma nova classe de objetos astronômicos e diminuir o número de planetas do Sistema Solar repercutiu de maneira estrondosa. Todos, astrônomos ou não, têm alguma opinião a respeito, e estamos longe de conseguir um consenso.

Desde sua descoberta, Plutão foi visto com muita curiosidade. Não era fácil entender como um corpo pequeno como ele estava localizado numa região onde só havia planetas gigantes. Durante muito tempo, admitiu-se a idéia de que ele deveria ter sido um satélite de Netuno que saiu de sua órbita ao redor deste planeta. Cogitou-se também de Plutão ter se formado no cinturão de asteróides, e ter tido sua órbita alterada por algum impacto, ou perturbação gravitacional, lançando-o até a órbita que ocupa hoje.

De qualquer forma, Plutão sempre foi um caso à parte. Ainda assim, foi classificado como planeta. Mas a natureza de Plutão tornou-se menos obscura quando estudos posteriores de cometas de longo e curto período levaram às hipóteses de duas novas regiões no sistema solar: o Cinturão de Kuiper e a Nuvem de Oort.

A Nuvem de Oort seria a fonte dos cometas de longo período, aqueles que completam uma volta ao redor do Sol em mais de 200 anos. Esses cometas parecem vir de direções aleatórias do céu, de modo que os objetos da Nuvem de Oort distribuem-se esfericamente, como uma casca confinando o Sol e todos os objetos que estão consideravelmente sob sua influência gravitacional. A Nuvem de Oort marca o limite do Sistema Solar, e situa-se a cerca de cinqüenta mil vezes a distância entre a Terra e o Sol.

O Cinturão de Kuiper seria um disco formado por pequenos corpos, muitos deles semelhantes a Plutão, e teria início após a órbita de Netuno. Do Cinturão de Kuiper viriam os cometas que completam uma volta ao redor do Sol em menos de 200 anos, que são chamados cometas de curto período.

O Cinturão de Kuiper e a Nuvem de Oort unem-se através do Disco Disperso. A Figura 1 ilustra essas três grandes regiões do Sistema Solar.

200610artigolfigura1

Figura 1 (Imagem de Daniel Leite)

Com o desenvolvimento das tecnologias de observação do céu, descobrimos que o Cinturão de Kuiper é real. Nas vizinhanças de Plutão, apareceram diversos corpos semelhantes a ele, e muitos ainda vão aparecer.

Após a comprovação observacional do Cinturão de Kuiper, a natureza de Plutão foi melhor compreendida. Não era satélite nem asteróide que teve sua órbita alterada, mas um objeto do Cinturão de Kuiper, e, como ele, vários outros existiam.

A discórdia

Em abril de 2006, foi anunciada a descoberta de um objeto maior que Plutão localizado no disco disperso. Isso provocou uma ruptura na comunidade astronômica. De um lado os que defendiam que Plutão deveria continuar sendo chamado de planeta e o novo objeto, maior que ele, assim como outros que viessem a ser descobertos, também deveriam ser planeta. Do outro lado, os que achavam que Plutão, por ser muito mais semelhante aos novos objetos descobertos do que aos outros planetas, deveria ter uma classificação diferente, que também servisse para aqueles novos membros da família solar recentemente descobertos.

A União Astronômica Internacional optou, por votação, pela criação de uma nova classe de corpos celestes, que seriam os planetas anões, e também pela mudança de classificação de Plutão. Ele deixa de ser planeta e passa a ser planeta anão. Apesar da expressão utilizar a palavra “planeta”, é fundamental se ter em mente que planeta anão não é planeta.

Para criar essa nova classe de objetos, foi preciso defini-la com bastante precisão. E, para diferenciar planeta anão de planeta, também foi estabelecida uma definição mais clara para planeta. A única diferença entre planeta e planeta anão está em um detalhe que diz respeito à distribuição de matéria em sua órbita.

Tanto planeta como planeta anão gira ao redor de uma estrela. Tanto planeta como planeta anão tem que ser aproximadamente esféricos; isso exclui a maioria dos asteróides e cometas. A grande diferença está no que diz respeito a uma característica da órbita.

Um planeta tem que ter a vizinhança de sua órbita livre. Isso significa que em seu processo de formação, a maior parte do material em torno juntou-se para formá-lo, sem sobrar material para dar origem a outros corpos semelhantes. Note que o Cinturão de Kuiper, onde estão muitos planetas anões, é uma região bastante povoada, semelhante ao cinturão de asteróides. Essa situação não se encontra nas órbitas dos oito planetas do Sistema Solar.

Depois de resolvida a questão, o tal objeto maior que Plutão foi batizado de Éris (oficialmente 136199 Éris), deusa grega da discórdia e da contenda. Bom nome para um astro que gerou divisão na comunidade astronômica.

Plutão cruza a órbita de Netuno?

Algo que poderia ser perguntado é: mas se Plutão cruza a órbita de Netuno, então Netuno não tem sua órbita livre. A questão é que Plutão não cruza a órbita de Netuno. Muitos livros didáticos antigos traziam ainda mais esse erro.

O erro vem de uma questão de perspectiva. Dê uma olhada na Figura 2, que traz a órbita de Plutão em vermelho (mais externa), e também as órbitas de Saturno, Urano e Netuno, imediatamente antes da órbita de Plutão.

200610artigolfigura2

Figura 2 (Imagem produzida com o software livre Celestia)

Parece que a órbita de Plutão cruza a órbita de Netuno? Parece. Mas veja abaixo a mesma imagem em uma outra posição.

200610artigolfigura3

Figura 3 (Imagem produzida com o software livre Celestia)

A órbita de Plutão é bem mais larga que a de Netuno e está bastante inclinada em relação às órbitas dos outros planetas, apenas isso.