Marcelo Gleiser, em sua coluna dominical de 23/12/2012, comenta estações do ano e temas correlatos dadas  efemérides próximas como o solstício de dezembro e seu consequente início do nosso Verão e o Natal.

Apesar de acertadamente tecer considerações sobre a oposição entre as Estações do Ano nos hemisférios Sul e Norte e suas divertidas e evidentes consequências culturais deslocadas de contexto (neve no Natal, etc)  comete alguns equívocos clássicos de divulgação, pelo menos um erro e outros pontos estão obscuros.

Os endereços são:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelogleiser/1207776-celebrando-nosso-piao-celeste.shtml

http://folha.com/no1207776

Como a coluna poderá ser lida junto a educadores com a autoridade de fonte,  teço os seguintes comentários

Primeiro trecho:

“Essa diversidade climática vem essencialmente da inclinação do eixo de rotação da Terra em 23,5o. A Terra é um pião celeste, girando em torno de si mesmo, meio que caindo, descrevendo uma leve elipse em torno do Sol.”

“Se enxergássemos o Sistema Solar de longe, ele pareceria um disco plano, com o Sol no centro (ou quase) e os planetas a circundá-lo. A inclinação da Terra é em relação a esse plano, chamado de plano da eclíptica.”

Precessão dos Equinócios.

Equívocos Clássicos:

1) O mais clássico dos equívocos: a inclinação do eixo da Terra. Ela é com relação à perpendicular ao plano da órbita da Terra, o plano da eclítica e não em relação à eclítica. A perpendicular aliás, leva o nome de eixo eclítico exatamente por ser ortogonal a esta. Caso fosse com relação ao plano, a inclinação seria de 90o-23.5o = 67.5o.

2) As Estações do Ano são devidas ao fato do eixo da Terra possuir tal inclinação tanto quanto ao fato da Terra orbitar o Sol. Ele cita a translação imediatamente após, mas não estabelece a necessária conexão causal. Ou seja: quais as causas das Estações do Ano? Duas, a inclinação do eixo terrestre & o fato da Terra orbitar o Sol. Terra parada teria diferenciação climática variando com a inclinação (a cada inclinação, uma tipologia climática) , mas não teríamos as Estações.

Pontos Obscuros:

1) “Se enxergássemos os Sistema Solar de longe ele pareceria um disco plano com o Sol no Centro e os planetas a circundá-lo”

1a) O que pretende definir como Sistema Solar?

1b) Quão longe? De próxima Centauri?

Se está definindo o Sistema Solar como o Sol e os planetas, o “longe” seria digamos, uma distância do Sol equivalente ao eixo maior da órbita de Plutão? Mas então o que faria o disco? Se está considerando o disco como o Cinturão de Kuiper, porque não incluir a Nuvem de Oort? Mas a Nuvem de Oort tem formato esférico, não?

Mas se “enxergássemos” o Sistema Solar a uma distância que considerasse o Cinturão de Kuiper ou a Nuvem de Oort não veríamos (“enxergaríamos?”) nem esfera nem disco. Veríamos uma estrela entre outras….

Outro trecho: “… agora o eixo de rotação terrestre está a um grau da estrela Polaris”.

“Em 13 mil anos, Polaris vai estar do lado oposto do eixo.”

2) Eixo é uma linha não um ponto.

2a) São dois os pontos no céu ao redor dos quais vemos as estrelas girarem: os pólos celestes, Sul e Norte.

2b) No Brasil, mais usualmente não vemos a Polaris, só na parte de nosso território que fica no Hemisfério Norte. O Polo Celeste Sul não está próximo a nenhuma estrela, mas podemos usar o Cruzeiro do Sul como orientação para determiná-lo .

2c) O que é o Lado oposto do eixo? Ele teria de ter descrito o círculo que o eixo descreve no céu fazendo o Pólo Celeste Norte estar diametralmente oposto em treze mil anos. Neste círculo.

Erro.

‘… No caso da Terra, isso se deve a ela não ser uma esfera perfeita, sendo um pouco achatada nos polos e estufada no Equador. A força gravitacional combinada da Lua e do Sol age sobre o Equador, criando  um torque que tenta alinhar o eixo de rotação da Terra com o plano da eclíptica, tentando fazer a Terra “cair”.’

Provavelmente em função do primeiro equívoco, descreve erradamente a precessão. O efeito da precessão é tentar alinhar o eixo de rotação da Terra com o eixo eclítico (novamente, perpendicular ao plano orbital da Terra) . Ou seja, seu efeito não é fazer a Terra “cair” como afirma, mas “levantar” a Terra, pois o torque (que cita sem explicar o que é) é PARALELO ao plano da eclítica, ortogonal ao eixo eclítico em torno do qual o eixo precessiona. Qualquer bom texto didático explica isto. Cito um endereço da UFRGS, de renomados astrofísicos brasileiros: (http://astro.if.ufrgs.br/fordif/node8.htm) para facilitar a conferência.