Supernova na Galáxia do Charuto (M82)

Foi-se o tempo em que fumar era visto com algum glamour. Hoje, não são mais os mocinhos dos filmes que fumam, são os bandidos. Se a galáxia M82 tivesse seu nome popular criado nos dias atuais, dificilmente ela teria sido chamada de Galáxia do Charuto.

E essa galáxia ficou famosa porque durante uma aula do curso de graduação em Astronomia no Observatório da Universidade de Londres, em 21 de janeiro de 2014, o grupo de alunos e seu professor descobriu uma supernova. As supernovas são eventos que produzem muito brilho, um brilho tão intenso que normalmente se destaca em comparação com o brilho de todas as outras estrelas da galáxia. Não é possível se prever exatamente quando uma supernova irá acontecer. Aqui na nossa Galáxia, podemos, no máximo, utilizar a estatística de que uma supernova acontece a cada 50 anos aproximadamente. Em outras galáxias, como a Galáxia do Charuto, não temos sequer uma estatística para nos deixar de olhos mais atentos.

GIF animada mostrando M81 antes da detecção da suprnova SN 2014J e depois da detecção. (Fonte  UCL Mathematical & Physical Sciences)
GIF animada mostrando M82 antes da detecção da suprnova SN 2014J e depois da detecção. (Fonte UCL Mathematical & Physical Sciences)

Lembrando a inesquecível aula, o estudante Tom Wright disse à BBC:

“Num minuto estávamos comendo pizza, então, cinco minutos depois ajudamos a descobrir uma supernova. Não posso acreditar nisso!”

Sem mencionar nenhuma pizza, o Astrônomo e professor Steve Fossey também disse à BBC:

“Apontamos o telescópio para Messier 82 – é uma galáxia bastante brilhante, bastante fotogênica. Mas assim que ela apareceu na tela, não parecia normal para mim.”

M82, a Galáxia do Charuto fotografada pelo Telescópio Espacial Hubble. (Crédito: NASA/ESA)
M82, a Galáxia do Charuto fotografada pelo Telescópio Espacial Hubble. (Crédito: NASA/ESA)

Além do fato inusitado dessa supernova, batizada de SN 2014J, ter sido descoberta em uma aula de faculdade, ela é de um tipo muito importante para a Astronomia, Ia. Supernovas do tipo Ia são consideradas “velas padrão”, objetos utilizados para medir distâncias astronômicas.

A Galáxia do Charuto está a 12 milhões de anos-luz. Isso significa que essa supernova acontece 12 milhões de anos atrás e só agora sua luz chegou aqui para podemos observá-la. Parece longe? Muito tempo? Na verdade essa é a supernova mais próxima que observamos desde a SN1987A que aconteceu em nossa vizinha Grande Nuvem de Magalhães e da SN 1993J em M81 (observadas respectivamente em 1987 e 1993).

A SN 2014J vai ser visível durante as próximas semanas mesmo com pequenos telescópios. Mas a Galáxia do Charuto se localiza na constelação da Ursa Maior, muito difícil de ser observada do hemisfério sul. Mas, se você estiver em uma posição privilegiada e tiver um telescópio, aproveite para tentar encontrar  um nome mais saudável para essa galáxia.

 Leia Mais:

Site da University College of London (em inglês): http://www.ucl.ac.uk/maps-faculty/maps-news-publication/maps1405

BBC News (em inglês): http://www.bbc.co.uk/news/science-environment-25860454

Autor: Leandro L S Guedes

Sou Astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, faço doutorado no curso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, pela UFRJ, e nesse ano de 2013 estou passando alguns meses na Universidade de Notre Dame, EUA. Tenho interesses em: Astronomia, História, Epistemologia, Filosofia da Ciência.

9 pensamentos em “Supernova na Galáxia do Charuto (M82)”

  1. Estou impressionado com este blog e da sensibilidade dos termos utilizados. Claramente vemos paixão pelo que faz.
    Sobre o acontecimento, deve ter sido algo para nunca mais ser esquecido. Comigo, ao ver a ISS sendo perseguida pela Soyuz (na última falha de acoplagem) foi algo tão fenomenal, que tive a certeza de que tudo era real. Acontece que o Universo é tão fantasioso e fantástico, que você acaba tendo dúvidas sobre o que é real e o que é imaginação. As verdades de hoje se tornam meras especulações amanhã e vice versa…

    1. Muito obrigado, Adriano! Pelo carinho e pelas sábias palavras sobre “as verdades”…

      Cara, que experiência magnífica essa de ver a ISS e a Soyuz!

  2. Pelo que percebo muitas situações na Astronomia acontecem dessa forma, não é? Quando menos se espera acontecem! E estar presente no momento certo, na hora certa que esses eventos aparecem, deve ser incrível.
    Também gostei da frase do Pedro (:

    1. Muitas situações são impossíveis de se prever, como essa da explosão de uma supernova. Mas outras permitem uma previsão até com bastante antecedência, como aconteceu com o cometa que se chocou com Júpiter em 1994. Vários telescópios estavam apontados para o planeta para observa a primeira colisão prevista no Sistema Solar 🙂

      Com exceção das colisões desse tipo, entre objetos do Sistema Solar, é praticamente impossível prever data exatas dos eventos. As previsões são do tipo “essas galáxias vão colidir daqui a cerca de 10 bilhões de anos” ou “o Sol vai ser uma gigante vermelha daqui a cerca de 4,5 bilhões de anos”… sempre tem um “cerca de” explícito ou implícito. Eu gosto sempre de deixar explícito porque as medidas astronômicas possuem, geralmente, uma margem de erro grande o que torna impossível previsões mais precisas. Isso não é particularidade da Astronomia, medir coisas na natureza é muito difícil. Até a nossa altura ou o comprimento de qualquer coisa tem uma incerteza, na melhor das hipóteses de um milímetro.

      Mas é o que dá, né? 😀 Aliás, essa nossa conversa me lembrou que atualmente não se usa mais a expressão “ciências exatas”. Afinal, qual ciência é exata?? 😀

      Abração! Bons Céus!!!

      1. Pois é, qual ciência é exata? É o que sempre esclareço no primeiro dia de aula para os meus alunos… pena que ainda vejo a “carinha de triste” deles por acharem que só por não ser exata é menos aceitável. Porém, graças ao Heisenberg, eles sorriem aliviados por saberem que uma das poucas certezas é não haver certeza alguma, só para descontração. hauahauha

  3. Pudemos avistar de Nova Lima – Minas Gerais, por volta das 05:15 h de 08/02/14 uma estrela muito diferente das outras, muito maior. Um grão de feijão no espaço. Possível de fotografar com um celular comum.

    1. Oi Thais!

      Se foi às 5h15m da tarde, provavelmente o que você viu foi o planeta Júpiter que realmente está lindamente iluminando o céu esses dias. Dê uma olhada nele fotografado com o celular na terceira imagem desse post: http://astronomia.blog.br/luar-fotografado-celular/.

      Se você fez a observação às 5h15m da manhã, certamente foi Vênus que você viu. Vênus se destaca tanto no céu que dá para entender perfeitamente porque recebeu o nome da deusa da beleza. Com certeza ele sai ainda mais bonito que Júpiter numa fotografia de celular.

      Bons Céus!

  4. Que sorte deles.
    Imaginar as possibilidades de se ver uma coisa assim e numa simples aula de faculdade chega a ser engraçado. rsrs

    O universo as vezes parece brincar com a gente.

    1. Hahahaha!:D Concordo com você, Pedro. Os caras vão ter assunto para todas as reuniões da turma.

      Adorei sua última frase. Poética, profunda e instigante…

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