“O passado, o presente e o futuro são apenas ilusões, ainda que tenazes”
Albert Einstein

Os seres humanos buscam ao longo da história diferentes referências para elaborar explicações sobre os acontecimentos do seu cotidiano. Muitas dessas referências foram encontradas nos fenômenos celestes como, por exemplo, o movimento do Sol ou o movimento da Lua.

Entre um nascer do Sol e outro temos um período de um dia. Isso acontece devido à rotação da Terra em torno do seu próprio eixo, enquanto entre duas fases iguais da Lua temos, aproximadamente, um mês. Segundos, minutos, horas, dias, meses e anos são unidades de medida do tempo que foram criadas pela nossa imaginação para ajudar na organização das nossas atividades, e constituem uma ferramenta muito importante para entendermos os fenômenos que ocorrem ao nosso redor.

A regularidade de alguns fenômenos celestes sugere certa ordem na natureza, e, entender essa ordem, possibilita ao homem a capacidade de fazer previsões. Prever o que vai acontecer no futuro traz muito benefícios para nós, pois dessa forma podemos planejar diversas atividades como plantar, colher, viajar, festejar, etc.

Apesar de sabermos medir o tempo, os cientistas ainda buscam uma boa definição para ele. Antes de Albert Einstein elaborar a Teoria da Relatividade, o tempo e o espaço eram considerados absolutos, ou seja, eles tinham as mesmas propriedades independentemente do referencial do qual eles fossem observados. Einstein postulou, que se alguma coisa fosse absoluta no Universo, essa coisa seria a velocidade da luz no vácuo. De acordo com sua teoria, independente do referencial, a luz ou qualquer outra onda eletromagnética viaja na incrível velocidade de 300 mil quilômetros por segundo. Dessa forma, o espaço e o tempo ficam relativos, e até mesmo a simultaneidade dos fenômenos se torna relativa. Ao observar dois objetos caindo ao mesmo tempo de uma certa altura, você certamente vai dizer que as quedas foram simultâneas. Porém, para outra pessoa em um veículo super-rápido com velocidade próxima à da luz, observando as mesmas quedas vai dizer que uma aconteceu primeiro do que a outra. Com essa teoria, Einstein sugere que as noções de passado, presente e futuro são ilusões, pois são frutos da imaginação e da percepção humana e não são absolutas.

As equipes dos Núcleos de Astronomia e Audiovisual do Espaço do Conhecimento UFMG estão investindo em estudos e experimentos sobre a produção de conteúdos no formato Fulldome, que poderão ser exibidos na cúpula do planetário. Dentro dessa proposta, planejamos uma expedição astrofotográfica ao Parque Estadual do Pico do Itambé em Minas Gerais. A data foi escolhida em função do período de férias uma vez que todos os envolvidos são estudantes de cursos de graduação e pós-graduação da UFMG.

Partimos logo no primeiro dia de férias, exatamente uma noite antes de a Lua atingir a sua fase crescente com 50% do seu brilho. A primeira noite foi fundamental para aquisição de imagens, pois a cada dia o brilho da Lua provocaria mais interferência. Chegamos à sede do Parque às 14h, mas até organizarmos toda a subida com a equipe, iniciamos o deslocamento às 16h. Com a ajuda dos guardas parque e de um burrinho de carga conseguimos chegar à metade do caminho por volta das 18h. Como não poderíamos perder a primeira noite, decidimos procurar um local para acampar. Escolhemos local conhecido como Lapa do Morcego, um local estratégico já que, além de ser um ótimo abrigo, possui locais com excelentes vistas para o sudeste, exatamente a direção que planejamos apontar nossas câmeras. A permanência nesse local só é permitida com autorização da Gerência do Parque, que foi possível devido à comunicação por rádio.

lapa do morcegoUma das principais técnicas que escolhemos para esse trabalho é conhecida como time lapse, que sugere, dentre várias possibilidades, uma reflexão sobre a relação entre os fenômenos celestes e as múltiplas percepções do tempo do espaço. Apontamos uma das câmeras na direção do polo sul celeste, buscando um enquadramento que tornasse possível a percepção da passagem do tempo também na paisagem. Iniciamos essa captação às 19h e interrompemos às 0h30min. No início, ainda havia um pouco de luz solar refletida pela alta atmosfera, mas aos poucos o brilho das estrelas, da cidade de Serro, dos carros e dos aviões começaram a se destacar em cena. O vídeo a seguir foi editado para mostrar a trajetória das estrelas e de outros objetos que foram aparecendo ao longo da captação. Altere a qualidade da resolução para 1080HD, se for assistir em tela cheia.

Star Trail Pico do Itambé

Quem assina a trilha sonora, cujo trecho foi usado nesse vídeo, é o produtor de música eletrônica, Richard David James, mais conhecido por Aphex Twin. Suas obras remetem a uma sonoridade particular e cênica, culminando em um resultado místico, louco, sensitivo, experimental, e às vezes atonal. Escolhemos um trecho da música “Grey Stripe”, de seu trabalho Ambientação ou “Selected ambient works”.

No primeiro frame o Cruzeiro do Sol aparece à direita no alto do enquadramento. Essa constelação foi usada pelos povos Tupi Guarani como referência para prever as mudanças de estações, pois sua posição muda ao longo da noite e ao longo do ano. No inverno aqui do hemisfério sul ele aparece mais alto no início da noite, sendo que de madrugada já não é mais possível avistá-lo. O desenvolvimento desse sistema de referências para perceber e medir a passagem do tempo não é um privilégio somente da Física ou da Astronomia. De acordo com o contexto social e cultural, as pessoas desenvolvem maneiras diferentes de olhar os mesmos fenômenos, como nos mostram os diferentes calendários existentes.

O último frame do vídeo mostra que a trajetória das estrelas são arcos de circunferência concêntricos ao Polo Sul Celeste. Esse ponto especial pode ser interpretado como o local onde o eixo de rotação da Terra fura a esfera celeste. Localizar esse polo no céu não é uma tarefa fácil, pois não existem estrelas brilhantes por ali. No Pico do Itambé ele se localiza a 18,5 graus acima do horizonte, o valor da latitude desse lugar. Usar as estrelas como forma de se orientar e se localizar foi uma tática usada pelos navegadores do século XVI para encontrar suas coordenadas sobre a superfície terrestre.

star trails

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Agradecimentos ao Parque Estadual do Pico do Itambé, Instituto Estadual de Florestas, Governo de Minas, Colégio Loyola, Instituto Milho Verde, Fabiano Pinto e Carlos Alberto de Freitas Júnior.