O sensacional Luis Fernando Verissimo publicou em O Globo, dia 3 de setembro de 2013, essa crônica interplanetária que é leitura obrigatória para quem gosta de literatura e de Astronomia. Divirta-se e, se você for um poeta, cuidado com os extraterrestres…

Poetas

(por Luis Fernando Verissimo)

Ainda não sabemos tudo sobre Marte, mas sabemos o bastante para dizer que ele nos decepcionou. Marte foi um blefe. Os tais canais vistos pelas lunetas antigas, provas de que haveria alguma forma de vida inteligente no planeta, mesmo que fosse só de engenheiros, não eram canais. Nenhum vestígio de qualquer tipo de vida apareceu em Marte, muito menos o de uma civilização de homenzinhos verdes, ou de qualquer outra cor, com a capacidade para invadir a Terra. Anos e anos de literatura premonitória e previsões terríveis foram desperdiçados. Nos apavoraram por nada. Como no Iraque, também não havia armas de destruição em massa em Marte.

Marte, fotografado pelo Telescópio Espacial Hubble.
Marte, fotografado pelo Telescópio Espacial Hubble.

Mas, se Marte revelou ser um imenso parque de estacionamento, que não ameaça a Terra, isso não quer dizer que não existam civilizações lá fora que cedo ou tarde entrarão em contato conosco, exigindo nossa submissão ou anunciando a invasão.

Nada nos assegura que, se ainda não fomos invadidos por exércitos extraterrenos, não tenha havido — ou esteja havendo neste momento — missões de prospecção e espionagem, feitas por destacamentos avançados ou por agentes isolados, Não quero assustar ninguém, mas vou contar. Já tive contato com um desses agentes extraterrestres. Desconfiei quando ele disse “Vocês são engraçados…” e eu perguntei “Vocês”, quem? “Vocês” brasileiros? “Vocês” carecas? “Vocês” míopes? Destros? Cardiopatas? E ele respondeu: “Vocês, gente.”

E me confessou (já tinha bebido um pouco) que não era deste mundo, era de outro, e estava prospectando o Universo inteiro atrás de um planeta para ser colonizado pelo seu. Achava que tinha, finalmente, encontrado este planeta. Era a Terra. No seu relatório, recomendaria que a Terra fosse ocupada e sua principal riqueza natural explorada, pois era o que faltava no planeta do qual viera.

Perguntei qual era a riqueza natural que nós tínhamos e eles não e o extraterrestre respondeu: “A poesia.” E perguntou: “Você sabe que a Terra é o único planeta do universo conhecido em que as pessoas dão nome aos ventos?” Fiquei lisonjeado com aquilo, pensando: “Taí, somos todos poetas e não sabíamos”, e perguntei o que fariam com os poetas da Terra no planeta dele.

— Comê-los, claro — respondeu ele.

E explicou que não havia mais poetas no seu planeta porque já tinham comido todos. Ou como eu imaginava que eles tinham se tornado uma civilização tão avançada?

Superfície marciana, com a cratera conhecida como "O Sorriso de Marte"
Superfície marciana, com a cratera conhecida como “O Sorriso de Marte”

Publicado por Leandro L S Guedes

Sou Astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, faço doutorado no curso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, pela UFRJ, e nesse ano de 2013 estou passando alguns meses na Universidade de Notre Dame, EUA. Tenho interesses em: Astronomia, História, Epistemologia, Filosofia da Ciência.

5 respostas em “Poetas (Luis Fernando Verissimo)”

    1. Aurora, excelente lembrada! “Ouvir estrelas” é um clássico, eu já soube esse poema decorado 😀

      Muito bem lembrado, muito obrigado pela sugestão!!!! Estará aqui nas Artes sem dúvida em breve com um agradecimento!

  1. Muito bom o texto do Veríssimo. Realmente só a poesia salva! interessante a ligação que podemos fazer entre a arte e a astronomia.

    1. Obrigado pelo comentário, Claire. Também adorei esse texto 🙂 Fico muito feliz por você também gostar da ligação entre Astronomia e Arte. Eu tenho a opinião que ciência e arte tem muita coisa em comum, afinal, ambas buscam descreve a natureza. Métodos diferentes, mas a mesma finalidade, ver as duas coisas juntas é sempre muito legal.

  2. Sensacional.
    O ser humano tem estado tão estressado pela rotina, que já não repara mais nas coisas belas que estão ao nosso redor e quantas coisas nós também já fizemos.

    Será que nós também não temos comido nossos poetas?

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