Muitos cometas possuem órbitas que os levam de regiões frias, distantes do Sol, a regiões quentes, próximas do Sol. Dependendo da estrutura do cometa e de sua velocidade, a mudança de temperatura pode ser demasiadamente brusca, a ponto de provocar fragmentação do núcleo. A esse fenômeno chamamos estresse térmico , e é a mesma coisa que acontece quando colocamos um cubo de gelo num copo de mate quente, e o vemos rachar.

Fragmentos B e C do Cometa 73P/Schwassmann Wachmann 3. Foto de Andrew Catsaitis em 31/5/2006.
Fragmentos B e C do Cometa 73P/Schwassmann Wachmann 3. Foto de Andrew Catsaitis em 31/5/2006.

Entre os dias 12 e 14 de maio de 2006,foi fácil encontrar no céu fragmentos do cometa 73P/Schwassmann-Wachmann 3, que se apresentou fragmentado pela primeira vez em 1995. Seu núcleo deu origem a vários “cometinhas”. Desde então, alguns fragmentos foram perdidos de vista e outros continuaram a ser observados. Algo semelhante aconteceu no século XIX com o histórico cometa Biela, que em 1846 surpreendeu seus observadores ao se apresentar dividido em dois pedaços. Biela não é mais observado, provavelmente porque seu material volátil, que dá origem às belas estruturas características do cometa, coma de poeira e cauda de poeira, se esgotou.

Cometa Biela, fevereiro de 1846
Cometa Biela, fevereiro de 1846

Tanto Biela como 73P/Schwassmann-Wachmann 3 fragmentaram-se provavelmente por estresse térmico, mas essa não é a única forma de se fragmentar um cometa. Colisão com outros cometas ou asteróides também podem levar à quebra do núcleo. Um outro mecanismo de fragmentação foi observado em 1994 com o cometa Shoemaker-Levy 9 que, ao se aproximar de Júpiter, se fragmentou em vários pedaços que se chocaram com o planeta. Esse tipo de fragmentação ocorre quando um corpo de pouca massa se aproxima muito de um corpo de muita massa, e acontece o chamado efeito de maré . As colisões dos fragmentos de Shoemaker-Levy 9 com Júpiter foram observadas ao vivo!

Júpiter fotografado pelo Telescópio Espacial Hubble. As manchas escuras na parte de baixo mostram locais de impacto de fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9.
Júpiter fotografado pelo Telescópio Espacial Hubble. As manchas escuras na parte de baixo mostram locais de impacto de fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9.

Os cometas, assim como os asteróides, guardam importantes informações sobre a composição química da nebulosa que deu origem ao Sistema Solar. Em 2005, a missão americana Deep Impact lançou um módulo de 320kg contra o cometa Temple 1, com o objetivo de ejetar matéria de regiões profundas do cometa para o espaço. A matéria ejetada foi observada e está sendo estudada. E essa foi a primeira vez que tivemos contato tão próximo com material tão primordial do Sistema Solar.

Quando ocorre a fragmentação de um cometa, muito desse precioso material do núcleo é expelido. Várias observações são feitas para se tentar obter a maior quantidade possível de informações que nos ajudem a compreender melhor a formação do nosso Sistema Solar.

Além de belos, cometas têm grande importância científica. Aos que gostam da observação do céu, fica a sugestão de se informar sobre localização e condições de visibilidade de cometas, principalmente dos visíveis a olho nu. Alguns podem estar quase no limite de não serem mais visíveis a olho nu e serem difíceis de se encontrar, ou ainda não mostrarem uma cauda ou coma muito evidentes. De qualquer forma, a busca vale a pena. Mas sem estresse. Deixe isso para os cometas.

Uma versão resumida desse texto foi publicada em junho de 2006 na Curiosidade do Mês no folder e site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro

Publicado por Leandro L S Guedes

Sou Astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, faço doutorado no curso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, pela UFRJ, e nesse ano de 2013 estou passando alguns meses na Universidade de Notre Dame, EUA. Tenho interesses em: Astronomia, História, Epistemologia, Filosofia da Ciência.

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