Esse post é uma versão para internet de um trabalho que entreguei no fim do curso de História da Ciência no Brasil, ministrado pelo Profesor Carlos Alberto Lombardi Filgueiras, durante o doutorado no programa de História da Ciência e das Técnincas e Epistemologia (HCTE/UFRJ). A versão diagramada para impressão do documento tem cerca de 30 laudas. Todas as notas de rodapé estão concentradas ao fim do texto, e todas possuem um link que remete ao ponto do texto onde se faz referência à nota. Dessa forma, pode-se consultar cada nota de rodapé na medida em que apareçam e retornar ao texto através dos links, sem se perder na leitura.

Sumário

Introdução
Os Índios
Nas Caravelas
Nos Primórdios do Brasil
Do Imperial Observatório do Rio de Janeiro ao LNA
Astronomia Hoje
Apêndice 1 – Nossos Índios, Os Gregos e a Via-Láctea
Apêndice 2 – A Carta de Mestre João
Referências

Introdução

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Esse trabalho traz um breve resumo da história da astronomia no Brasil, desde nossos índios até o que temos nos dias de hoje. Grande parte dessa história se confunde com a própria história do atual Observatório Nacional.

Dois aspectos eu destaco quando se fala sobre a história da astronomia no Brasil: o esquecimento dado à astronomia indígena, muito brevemente citada aqui, e a verdadeira luta travada pelos pioneiros dessa ciência em nosso país para a instauração da pesquisa pura. Como será visto, sempre houve obstáculos de origem cultural, seja durante o período colonial, em que não se buscava uma identidade nacional, seja durante o império em que se busca a consolidação da nova nação como independente e os esforços eram todos políticos e econômicos deviam ser todos de ordem prática, e seja durante grande parte da república, quando o ideário positivista tornava a ciência algo estritamente utilitário.

Dentre os ilustres personagens mencionados nesse texto, merece, sem dúvida, grande destaque a figura do imperado Dom Pedro II. Aqui será mostrado algumas das fundamentais contribuições que esse homem fez para a astronomia e omitida as outras que fez para outras áreas da ciência.

Com muito merecimento, comemoramos oficialmente hoje o Dia da Astronomia no dia 2 de dezembro, dia do aniversário de Dom Pedro II.

Os Índios

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Uma das discussões mais interessantes que existe na História da Ciência, trata de quem teriam sido os precursores dos cientistas. Durante bastante tempo se considerou os filósofos tais precursores, mas me parece que, atualmente, há um consenso de que os líderes religiosos primitivos devem ser colocados nessa posição, pois eram eles que davam explicações para os fenômenos da natureza, ainda que baseada em mitos e intuições. Evidentemente, as mitologias consistem em uma forma de conhecimento que evolui de maneira completamente diferente de nossos métodos científicos, mas era esse o recurso que tínhamos num passado algo distante para compreender fenômenos da natureza.

Dessa forma, devemos ver a história da Astronomia no Brasil sendo iniciada exatamente onde se iniciou a história do país: com os índios. Os índios brasileiros têm uma mitologia riquíssima e pouco conhecida. Com um caminho semelhante ao das mitologias suméria, grega e romana, muitos personagens e figuras fantásticas dos índios brasileiros se relacionavam com o céu. Mas, de uma maneira diferente de outros povos, os índios brasileiros não utilizavam apenas as estrelas para mapear o céu e representar seus personagens, usavam também manchas escuras que podiam observar na Via-Láctea1.

Muitos dos nossos índios viam figuras na Via-Láctea, como uma anta e uma ema. Esses são animais bastante comuns em nossa fauna. A própria Via-láctea, segundo a mitologia, havia sido aberta pela Anta do Norte caminhando no céu. A Figura 1 mostra uma foto de longa exposição da região do Cruzeiro do Sul, onde podemos ver a Via-Láctea e algumas regiões das regiões escuras utilizadas por nossos índios para representar personagens imaginários. A Figuras 2 e a Figura 3 mostram imagens produzida por software que indicam a posição da Anta do Norte em comparação com as constelações clássicas que utilizamos atualmente.

Além de toda rica mitologia, que apenas citamos aqui, há ainda um outro aspecto bastante notável da astronomia indígena brasileira, talvez ainda mais notável do ponto do vista da História da Ciência. O jesuíta Padre Antônio Vieira escreveu que os índios com os quais trabalhava diziam que havia alguma relação entre as marés e a Lua. Durante muito tempo, a explicação aceita para as marés foi a encontrada por Galileu, na Europa Medieval. O Astrônomo Italiano explicou as marés pela rotação da Terra, que tendia a jogar a massa de água dos rios e oceanos para o espaço, provocando, assim, um aumento dos níveis que eram percebidos como marés altas. Hoje sabemos que, de fato, as marés são provocadas pela interação gravitacional entre a massa de água dos oceanos e da Lua. A explicação de Galileu não era correta, apesar do efeito que ele percebeu existir de fato, mas em uma escala perfeitamente desprezível em comparação com a alteração dos níveis das águas provocada pelas marés. Assim, nosso índios, apenas com sua observação da natureza, sem qualquer matemática ou física teórica desenvolvida, chegaram muito mais próximo da realidade do que um dos mais brilhantes cientistas que já tivemos.

Figura1: A Via-Láctea, na região do Cruzeiro do Sul. Ao lado do cruzeiro, a nebulosa escura conhecida como Saco de Carvão (http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/ap960503.html).

Figura 2: Constelações clássicas, na região próxima onde se encontra a constelação do Touro.

Figura 3: Contorno onde os índios viam, na mesma região representada na Figura 2, a Anta do Norte.

Nas Caravelas

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A expedição comandada por Pedro Alvares Cabral foi, por muito tempo, considerada a primeira visita européia às terras hoje brasileiras. Entretanto, essa idéia desmoronou em grande parte por causa da carta de um Astrônomo que fez parte dessa expedição, e podemos considerá-lo o primeiro Astrônomo, no sentido formal da palavra, a realizar trabalhos astronômicos por aqui.

Figura 4: Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878).

Era espanhol, e utilizava o nome João Faras ou João Emeneslau. Abriu sua memorável carta ao rei de Portugal Dom Manuel2, identificando-se como “bacharel mestre Johan, físico e cirurgião”, o que lhe rendeu o nome histórico de Mestre João. Essa carta foi entregue por Gaspa de Lemos, o mesmo responsável pela entrega da mais famosa carta de Pero Vaz de Caminha. Foi descoberta pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, que a tornou pública em 1843 através da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo V, número 19.

Abaixo temos o registro da primeira atividade astronômica de Mestre João ao desembarcar no local que hoje chamamos de Baía Cabrália:

“ontem, segunda-feira, que foram 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho de Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17°, e ter por conseguinte a altura do pólo antártico em 17°, segundo é manifesto na esfera.”

Além de registrar a posição onde desembarcavam, um Astrônomo em uma esquadra poderia também zelar pelo correto rumo dos navios. Entretanto, parece que mestre João não se entendeu bem com alguns membros do grupo, quando escreve:

“E isto é quanto a um dos pontos, pelo que saberá Vossa Alteza que todos os pilotos vão tanto adiante de mim, que Pero Escolar vai adiante 150 léguas, e outros mais, e outros menos, mas quem diz a verdade não se pode certificar até que em boa hora cheguemos ao cabo de Boa Esperança e ali saberemos quem vai mais certo, se eles com a carta, ou eu com a carta e o astrolábio.”

Mestre João deve ter enviando junto com sua carta uma esboço de mapa celeste, e se mostra um profissional muito cuidadoso e conhecedor de algumas dificuldades técnicas com as quais tinha que lidar no seguinte trecho:

“Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do [hemisfério sul], mas em que grau está cada uma não o pude saber, antes me parece ser impossível, no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão em terra.”

Uma passagem emocionante para todos os amantes do céu habituados com as estrelas do hemisfério sul, é o trecho onde vemos, pela primeira vez, o registro escrito das estrelas do Cruzeiro do Sul que, certamente teria feito parte da possível carta celeste que parece ter sido anexada à carta:

“…estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro3; e a estrela do pólo antártico, ou Sul, é pequena como a da Norte e muito clara4, e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. Não quero alargar mais, para não importunar a Vossa Alteza…”

Após o contato feito pela expedição de Pedro Álvares Cabral, foi crescente o interesse de Portugal no desenvolvimento das potencialidades econômicas da nova terra. Foram enviadas ainda por Dom Manuel e, depois de 1521, por Dom João III expedições de cunho astronômico, mas com caráter eminentemente prático: determinar coordenadas geográficas para facilitar a confecção de mapas da costa brasileira.

Ainda não tínhamos, nessa época da História Brasileira, uma preocupação com a ciência pura, e na verdade, ainda estávamos bastante longe no tempo disso. Os objetivos eram de ordem prática, militar e financeira. Continuaria assim até depois da Independência do país.

Nos Primórdios do Brasil

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Figura 5: Colégio dos Jesuítas, Salvador, foto de Victor Frond, 1858 (http://cms-oliveira.sites.uol.com.br/4coljesuitas.jpg).

Encontramos já em meados do século XVII trabalhos científicos no Brasil. O Colégio dos Jesuítas, Salvador, abrigava alguns dos pioneiros da ciência no Brasil, em diversas áreas, e podemos destacar, entre eles, o matemático e astrônomo Valentin Stancel. Oriundo da atual República Tcheca, Stancel nasceu em 1621 e juntou-se à Companhia de Jesus, cujos membros são chamados Jesuítas, em 1637. Enquanto esteve em Portugal lecionou Astronomia na Universidade de Évora, e, para adaptar seu nome à língua portuguesa, passou a chamar-se Estancel.

Entre seus principais trabalhos científicos estão:

  • “Dioptra geodetica” (Pragua, 1652 ou 1654);
  • “Propositiones selenegraphicæ, sive de luna” (Olmütz, 1655);
  • “Orbe Affonsino, horoscopio universal” (Évora, 1658);
  • “Mercurius brasilicus, sive de Coeli et soli brasiliensis oeconomia”;
  • “Zodiacus Divini Doloris, sive Orationes XII” (Évora, 1675)
  • “Legatus uranicus ex orbe novo in veterum, h. e. Observationes Americanæ cometarum factæ, concriptæ et in Europam missæ” (Pragua, 1683);
  • “Uranophilus coelestis peregrinus” (Ghent, 1685).

No Brasil, deu continuidade aos seus trabalhos astronômicos, em especial com relação a observação de cometas, e suas observações tiveram grande importância na formulação da teoria clássica de gravitação, de Isaac Newton. Em sua grande obra Principa Mathematica Philosophia Naturalis, Newton dedica um espaço considerável à observações de Stancel (ou Estancel).

As observações de cometas do padre Valentin Stancil talvez tenha sido a primeira contribuição brasileira para uma Astronomia desinteressada de fins econômicos, mas com objetivos puramente científicos.

Nesse mesmo século, devemos destacar a construção daquele que é considerado o primeiro observatório astronômico da América do Sul. Funcionou entre 1639 e 1643 e foi erguido por George Marcgrave, que veio para Pernambuco com Maurício de Nassau. Marcgrave possui uma extensa obra sobre história Natural brasileira, e por ela ficou mais conhecido.

A política implementada por Maurício de Nassau buscou ser de paz e desenvolvimento. Talvez por causa de uma visão mais moderna de desenvolvimento, tenha sido possível a criação de um observatório astronômico, onde a astronomia podia ser exercida sem a finalidade objetiva de determinar coordenadas geográficas.

Desde a primeira metade do século XVII foram fundados grêmios e associações científicas, mas todas tiveram vida curta. A coroa portuguesa mandou fechar muitas delas, pois não se adequavam à política metropolitana e eram tidas como centros de disseminação de idéias contrárias a Portugal. Talvez tenhamos aí, a origem na Astronomia dos clubes de Astronomia, bastante populares hoje, e que reúnem amadores e profissionais para fazer observações e trocarem experiências.

As agremiações, ou clubes científicos, são belos exemplos de ciência democrática, sendo praticada por todos e com o principal objetivo de geração de conhecimento. Mas, como já foi dito, esse não era o objetivo da administração do país em seus primeiros momentos históricos.

Com a Independência, em 1822, essa situação foi ainda mais agravada pois o sistema de ensino preocupava-se com a criação de escolas superiores que possibilitariam a rápida formação de profissionais para atuarem na administração do regime colonial visando a organização do atual império, que seria totalmente mantido do próprio Brasil.

Os livros didáticos utilizados eram, em geral, de autores estrangeiros. O primeiro manual de Astronomia publicado no Brasil é de autoria de Manoel Ferreira de Araújo Guimarães, nomeado em 1811 como professor do quarto ano da Academia Militar. O material foi redigido em 1814 para uso exclusivo dos alunos da Academia.

O Professor Antonio Augusto Passos Videira cita em seu livro (constante na bibliografia), um trecho de Moraes (1994, p.128-129), sobre a obra de Manoel Guimarães:

“De fato, a não ser pela ordenação da matéria, nada de original. Mas a leitura dos quatro livros de que se compõe o compêndio no revela que o autor estava perfeitamente familiarizado com os progressos da Astronomia até sua época. No primeiro livro é digno de menção o estudo que faz da forma da terra (capítulo quinto) e das consequências físicas de seu achatamento (capítulo sexto); no segundo, o apanhado de noções de mecânica celeste; no terceiro, a análise do movimento dos planetas, o tratamento dos eclipses do Sol e da Lua. Deve-se notar ainda, a feliz escolha das aplicações”

Do Imperial Observatório do Rio de Janeiro ao LNA

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Logo após a independência, as questões de ordem prática se tornaram ainda mais importantes. Considerações puramente científicas eram secundárias. E é nessa situação que se cria através de um decreto vindo do Paço Imperial um observatório astronômico que, após sucessivas transformações resultaria no atual Observatório Nacional.

O imperador Dom Pedro I tinha necessidades práticas ao criar o observatório. A principal preocupação do Primeiro Império, cinco anos após sua fundação, era assegurar o bom funcionamento da administração do estado brasileiro e, para isso, entre outras coisas, precisava implementar a consolidação das fronteiras nacionais, talvez a principal herança do período colonial.

O decreto não deixava dúvidas sobre as tarefas do observatório: o conhecimento de dados astronômicos e meteorológicos, bem como o treinamento de engenheiros militares nesse assunto.

Essas tarefas determinaram a identidade do observatório ao longo de praticamente todo o império e por boa parte da república.

Até 1889 o observatório chamou-se Imperial Observatório do Rio de Janeiro. Antonio Augusto Passos Videira cita um trecho do relatório de Morize, diretor do Observatório entre 1908 e 1929, sobre os primeiros cem anos da instituição:

“No começo do século findo [XIX] esta cidade do Rio de Janeiro, com o influxo da independência, havia se tomado um grande desenvolvimento comercial e seu porto era um dos mais frequentados por numerosas embarcações, cujos capitães tinham a necessidade de conhecer a declinação magnética, assim como a hora média, e a longitude, para regular seus cronômetros, a fim de poder empreender com segurança a viagem de retorno ou de continuá-la ao redor do mundo.”

Em 1828, Dom Pedro I ordenou a criação de uma comissão constituída por três professores das academias militares para determinar a localização do novo observatório e suas funções. Eustáqui Adolfo de Melo Matos e Cândido Batista de Oliveira, ambos engenheiros da Academia Militar, escolheram o Morro de Santo Antônio para ser o local do novo observatório, mas Masimiano Antonio da Silva Leita, professor de matemática da Academia de Guardas-Marinhas, preferia dois outros, o morro do Castelo e o Morro de São Benedito. As divergências entre eles impediram que o observatório saísse do papel

A eclosão pelo Brasil de uma série de revoltas populares também contribuiu para a permanência da inexistência do novo observatório. As revoltas davam ao governo algo mais importante para se preocupar. Apenas após acalmados os conflitos, o Exército, principal responsável pela administração da Escola Militar voltou a se preocupar com o Imperial Observatório, que, segundo um relatório de 1844, resumia-se então a “uma coleção incompleta de instrumentos abandonados num dos torreões do edifício da Escola Militar”.

Nessa época foi fundamental a participação de Dom Pedro II, que cedeu seu observatório particular do palácio de São Cristóvão, para que os alunos pudessem aprender como usar instrumentos astronômicos.

Em 1845, o ministro da Guerra Jerônimo Francisco Coelho mandou concluir o torreão da Escola Militar e nomeou o professor de química Eugênio Fernando Soulier de Sauve, sobre quem caiu a responsabilidade de organizar o observatório. Nesse mesmo ano um relatório dizia o que era preciso para o observatório funcionar:

  1. Transferência do observatório para uma sede própria, uma vez que as instalações no prédio da Escola Militar eram insuficientes devido ao pouco espaço disponível;
  2. A promulgação de um regulamento organizando suas atividades e seu modo de funcionamento.

As duas medidas foram decididas na gestão de Soulier de Sauve, primeiro diretor do Observatório. Contra sua vontade, o local escolhido foi uma antiga e inacabada igreja no Alto do Castelo. O prédio, pertencente ao ministério da Guerra já tinha sido palco no seculo XVIII de algumas atividades científicas em astronomia e meteorologia.

Por ser visível do porto da cidade do Rio de Janeiro, sua localização permitia o fornecimento da hora exata para os navios fundeados nas águas da baía de Guanabara e para praticamente toda cidade.

Entre sua fundação em 1827 e 1846 o observatório foi uma instituição meio “fantasmagórica”, ora sem local definido, ora sem funções definidas. Em 1846 foi publicado um decreto que estabelecia como deveria funcionar a instituição e seu nome oficial: Imperial Observatório do Rio de Janeiro.

Nesse decreto, constava a tarefa de fazer “observações astronômicas e meteorológicas úteis às ciências em geral, e ao Brasil, em particular”, a produção de efemérides, incluindo compilação de dados de efemérides estrangeiras, e mais dois parágrafos que merecem destaque:

  • Formar os alunos da Escola Militar na prática das observações astronômicas aplicáveis à Grande Geodesia, particularmente sobre a determinação da latitude e longitude, sobre cálculo de azimutes, de declinação da agulha magnética e de nivelamentos astronômicos e barométricos;
  • Adestrar os alunos da Academia da Marinha na prática das observações astronômicas necessárias e aplicáveis a Navegação e, especialmente na uso dos instrumentos de reflexão, agulhas azimutais e de marear e nos respectivos cálculos para deduzir latitudes, longitudes, variações de agulha, e ângulo horário, a fim de regular os cronômetros.

Esses dois parágrafos, e as necessidades práticas dos demais, mostram que o Imperial Observatório do Rio de Janeiro não servia para formar astrônomos, mas, sim, engenheiros militares. Nessa época foi escrita a obra “Instrução Prática para o Engenheiro Astrônomo”, destinada ao uso dos alunos da Escola Militar e a quem quisesse astronomia de ordem prática.

Soulier de Sauve teve um sucessor que não mudou a situação da precariedade com que funcionava o observatório. Entre 1850 e 1870, o observatório foi administrado por Manoel de Mello, que já havia ocupado, 1847, o cargo de ministro da Guerra. Procurou fazer com que o observatório cumprisse o que estava em seu regulamento, tendo como linha diretiva a idéia de que, sendo o observatório principalmente uma instituição prestadora de serviços, a astronomia e a meteorologia como ciências puras não eram relevantes para garantir sua sobrevivência.

Na gestão de Manoel de Mello, houve o início das publicações  técnicas do observatório. Em 1852 já se encontravam impressas as “Efemérides Astronômicas do Imperial Observatório” e os “Annaes Meteorológicos”. Para as observações necessárias aos cálculos das efemérides, mais uma vez se nota a presença do imperador Dom Pedro II, que emprestou um de seus instrumentos.

Um dos problemas enfrentados por Manoel de Mello foi a guerra do parguai, inciada em 1860, que causou diminuição dos recursos financeiros destinados ao observatório e perda de pessoal.

Em 1865 a Escola Militar foi dividida em duas, para atender à crescente demanda por engenheiros civis. Criou-se a Escola Central, que ficaria responsável pela cadeira de astronomia, e manteve-se a Escola militar. Com isso, o Imperial Observatório foi anexado à Escola Central, que encaminhava estudantes para trabalhar na instituição.

Nesse mesmo ano de 1865, o observatório viu-se obrigado a solicitar autorização expressa para contratar pessoas estranhas à Escola Central. Com isso, os praticantes passaram a ser escolhidos por concurso, e não mais por indicação.

Ainda com Manoel de Mello, o Imperial Observatório conseguiu realizar sua primeira atividade científica de fato. Em 1858 foi organizada uma expedição para a observação de um eclipse solar total, em Paranaguá (PR).

Os resultados da expedição deram origem àquele que provavelmente é o primeiro artigo internacional do observatório e, consequentemente, o primeiro artigo astronômico internacional brasileiro, publicado nos “Comptes Rendus” da Academia de Ciências de Pais.

Em 1868 outra expedição foi organizada para observar um eclipse anular do Sol daquele ano. ‘interessante perceber por essas expedições que, apesar de ser uma instituição com fins estritamente práticos, a direção reconhecia que, sem a presença de práticas estritamente científicas, a instituição jamais se equipararia a outras semelhantes na Europa e nos Estados Unidos. Já se nota aí um sinal de que o governo começava a dar importância à ciência como meio de inclusão do Brasil no rol dos países ditos “civilizados”.

Figura 6: Emmanuel Liais (1826-1900).

Fazer com que o Brasil pertencesse pertencesse às nações civilizadas sempre foi uma meta de Dom Pedro II e de muitos que o assessoravam. Daí, inclusive, sua preocupação em ter seu noma associado ao nome do observatório, e sua apresentação como um patrono das ciências.

A identidade essencialmente militar começou a ser abandonada em 1871 quando assumiu a direção o sucessor de Manoel de Mello, o meteorologista e engenheiro francês Emmanuel Liais, a convite de Dom Pedro II. O imperador escolheu Liais exatamente para dar à instituição liberdade para exercer astronomia, meteorologia e geofísica, como fontes de conhecimento, além de qualquer finalidade prática.

Não foi fácil para Emmanuel Liais cumprir a tarefa que recebeu de Dom Pedro II. Se viu diante das resistências de oficiais do escalão mais alto do Exército preocupados com os rumos científicos que o cientista francês queria dar a uma instituição que, até aquele momento, havia sido ligada intimamente à esfera militar.

Figura 7: François Jean Dominique Arago (1786-1853).

Emmanuel Liais ingressou no observatório de Paris em 1854 tendo sido indicado pelo astrônomo Francês Françoi Arago, o primeiro a encomendar a Louis Jacques Mandé Daguerre para produzir uma imagem da Lua no material conhecido como daguerreótipo. Arago foi patrono de Liais até sua morte em 1853. Após isso, Urban Le Verrier, que previu matematicamente a existência do planeta Netuno, assumiu a direção do Observatório de Paris, e foi o responsável oficial para a nomeação de Liais para essa instituição.

As relações entre Liais e Le Verrier não eram boas, até ficarem insustentáveis em 1858, quando Liais se desliga do observatório e pede ao Ministério da Instrução Nacional francês permissão para vir ao Brasil em missão científica para juntar-se à expedição do Imperial Observatório para a observação do eclipse solar total em Paranaguá (PR). Assim, Liais integra a comissão brasileira chefiada por Manoel de Mello.

Figura 8: Urban Le Verrier (1811-1877).

Liais decide manter-se no Brasil, uma vez que seu rompimento dom Le verrier era definitivo,  e escreve uma carta às autoridades brasileiras apresentando-se como engenheiro e habilitado a realizar trabalhos práticos considerados necessários ao progresso do país. Conseguiu realizar trabalhos e manter-se no Brasil.

Por volta de 1859, quando foi enviado a Pernambuco realizar trabalhos de cartografia, que foi visitado por Dom Pedro II.  Fez uma série de observações de cometas, publicadas no “Comptes Rendus”. Apóes um retorno de 3 anos para a França, voltou ao Brasil e, em 1870, escolhido por Dom Pedro II para o Imperial Observatório do Rio de Janeiro.

Figura 9: Vista do Morro do Castelo,vendo-se a Ladeira do Castelo ou do Colégio, que levava ao antigo Colégio dos Jesuítas e sua Igreja. Na orla pode ser visto: o Arsenal de Guerra, antiga Casa do Trem e atual Museu Histórico Nacional construído por cima dos muros do Forte de Santiago e o Casarão do Quartel do Moura (imagem obtida em http://www.marcillio.com/rio/encentro.html).

Permaneceu aqui até 1871, quando novamente passa um período de 3 anos ne França. De volta, em 1874, dedicou-se à organização do Observatório. Para aceitar o posto de diretor do observatório ele exigiu maior autonomia á instituição. Apesar das resistência, Liais conseguiu o desmembramento do observatório da Escola Militar.

Liais também tentou realizar uma antiga requisição de quase todos os diretores, seus antecessores, a transferência para um sítio mais adequado. Entretanto, não conseguiu e o observatório permaneceu no morro do castelo até 1920.

Após sucessivos choque e batalhas políticas, Liais decidiu desistir da direção do observatório devido a uma desavença com um de seus ex-funcionários, o astrônomo brasileiro Manuel Pereira Reis. Voltando à França, radicou-se em Cherbourg, abandonou a ciência e dedicou-se à política. Foi prefeito daquela cidade em dois mandatos. Morreu em março de 1900 sem nunca ter alcançado seu maior objetivo como cientista: integrar a comunidade científica parisiense.

Manuel Pereira Reis abandonou o Imperial Observatório devida a desentendimentos com Liais, em 1878. Em 1881 instalou um observatório do morro de Santo Antônio, vinculado à Escola Politécnica. Com o início da derrubada desse morro em 1921, os instrumentos foram levados para sua atual localização, na chácara do Valongo, no morro da Conceição, entre 1924 e 1926. Esse local havia sido, no passado, local de vendas de escravos. A instituição fundada por Manuel Pereira Reis, é hoje o Observatório do Valongo, da Universidade federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

No Lugar de Liais, entrou o engenheiro belga Lus Ferdinand Cruls, mais conhecido como Luiz Cruls. Cruls, após a saída traumática de Pereira Reis, tornou-se o mais importante colaborados de Liais. Cruls, ao contrário de Liais, conseguiu não ser tão polêmico, e pôde se dedicar ao fortalecimento da política científica iniciada por seu antecessor.

Figura 10: Luiz Cruls (1848-1908).

Em 1828, Cruls organizou uma expedição científica à Patagônia para observar a passagem de Vênus diante do disco solar5. Esse evento permite o cálculo da distância entre Terra e Sol, a chamada Unidade Astronômica. O sucesso da expedição tornou o nome de Cruls conhecido entre cientistas europeus e norte-americanos.

Enquanto acontecia a expedição, uma carta era escrita a Dom Pedro II Comunicando que a Academia Científica de Paris concedia a Cruls o prêmio Valz, em reconhecimento “pelos seus trabalhos de todo o tipo sobre cometas”. Na mesma carta, o remetente diz que seus confrades estão felizes em reconhecer o mérito do observador, e os serviços que o Observatório do Rio de Janeiro é solicitado cada vez mais a prestar à ciência.

Assim, o prêmio indicava que o Imperial Observatório do Rio de janeiro começava a ser reconhecido como um centro de investigação de nível de excelência.

Cruls deu início a uma série de atividades científicas com o objetivo de tornar o observatório ainda mais respeitado cientificamente dentro e fora do próprio país. Algumas já haviam sido propostas por Liaia, mas foram levadas a cabo por Cruls. As mais significativas eram relacionadas a astronomia cometária:

  1. Determinação de órbitas de cometas;
  2. A natureza, por análise espectroscópica, dos elementos constituintes das caudas dos cometas;
  3. A organização, fora e dentro das fronteiras nacionais, de missões observacionais (como a da observação do trânsito de Vênus);
  4. A publicação do primeiro volume dos “Annaes do Imperial Observatório do Rio de Janeiro”;
  5. O prosseguimento das atividades de serviço já rotineiras (medição de dados meteorológicos, instrução de estudantes civis e militares, etc.)

A rica administração de Cruls realmente levou o Imperial Observatório a uma outra fase de sua existência. Isso permitiu retomar a antiga questão da mudança de sede do observatório, saindo do morro do Castelo. Mais uma vez Dom Pedro II entra em cena, doando 40 hectares da Imperial Fazenda de Santa Cruz e oferecendo dinheiro para os trabalhos de saneamento e preparação do terreno.

No novo sítio, Cruls planejava instalar a luneta fotográfica equatorial, encomendada aos irmãos Henry, na França, oferecida ao observatório por Dom Pedro II. Com ela, o Imperial Observatório poderia integrar o conjunto de países que tomariam parte no projeto internacional “Carta do Céu”, que pretendia fotografar imensas regiões do céu. Dificuldades políticas para receber os recursos necessários, que haviam sido aprovados pelo Parlamento, impediram a participação do observatório no projeto.

A Proclamação da República ofereceu um duro golpe na trajetória da instituição. O novo regime precisava construir o mais rapidamente possível uma imagem própria, diferenciando-se do antigo. Também influenciados pelas idéias positivistas, os primeiros líderes republicanos privilegiaram uma postura utilitarista no que diz respeito às ciências. Como anteriormente, o antigo Imperial Observatório do Rio de Janeiro, que agora se chamava Observatório do Rio de Janeiro, seria avaliado por seu desempenho, só que esse não era mais estritamente científico.

FIgura 11: Henrique Morize (1860-1930).

A república buscou fechar o observatório em seu início, mas Cruls, com o apoio de Benjamin Constant, ministro da Instrução Pública e um dos homens mais fortes do novo regime, conseguiu deter essa manobra. Entretanto, a aproximação com os militares fez com que o observatório voltasse a sofrer profundas influências do governo.

Na década de 1890 houve a tentativa de se transferir a capital para o interior do país. Cruls foi incumbido pelo marechal Floriano Peixoto, então presidente da República, de organizar uma expedição que deveria determinar o quadrilátero da nova capital nacional. Em junho de 1892 Cruls era nomeado chefe da Comissão Exploratória do Planalto Central. Na comissão,estava Henrique Morize, também funcionário do agora chamado Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, e sucessor de Cruls.

E expedição alcançou o resultado passando à história como Expedição Cruls. Ourtra expedição empreendida por Cruls teve a missão de determinar a localização exata da nascente do rio Javari, na fronteira com o Peru,  para resolver o conflito com a Bolívia. O Observatório voltava, a pedido do barão do Rio Branco, às tarefas de determinação de fronteiras.

Nessa última expedição, sua saúde debilitou-se muito, e em seus seis últimos anos de vida, entre 1902 e 1908, quando morre em Paris, Cruls não pôde mais dirigir sua instituição com o vigor de antes.

Poucos dias após a morte de Cruls, Morize foi nomeado diretor. Morize seguiu as lições de seu ex-chefe: procurou encontrar um caminho que não prejudicasse a instituição, e isso envolvia, obrigatoriamente, reconhecer como legítimas as necessidades e demandas dos governos republicanos. Entre 1898 e 1908, Morize assiste ao declínio da pa presença da ciência pura no observatório.

Após a queda de uma janela da biblioteca do observatório, Morize voltou a tentar junto ao governo a transferência para um novo sítio. Conseguiu pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial. O local escolhido foi a colina de São januário, no atual Bairro Imperial de São Cristóvão. O local era conveniente, porque o observatório continuaria visível desde o porto da cidade. Após anos de construção, Morize conseguiu executar a transferência para uma a sede, que começou a funcionar em 1921.

Em 1915, Morize criou o Observatório Geomagnético de Vassouras, o que permitiu a consolidação de uma das principais linhas de pesquisa do observatório ao longo de todo o século.

Como seus sucessores, Morize acreditava que a situação precária do observatório era, em parte, devido ao pouco interesse e respeito que o governo e a sociedade brasileira concediam à ciência. Era preciso organizar uma campanha de disseminação da importância da ciência. Morize considerava a ciência pura o motor da ciência e mesmo do desenvolvimento econômico e industrial de um país.

No decorrer de sua carreira de cientista e administrador da ciência, Morize percebeu que a única possibilidade de se mudar o ambiente científico no Brasil, conseguindo mais ênfase na ciência pura, era com a união de todos os cientistas. Era preciso criar uma associação que os defendesse. Essa foi uma das razões que levaram em 1916 à criação da atual Academia Brasileira de Ciências

Em 1922 Morize fez um gesto em favor de uma maior integração do Brasil aos organismos internacionais, com a adesão do país à União Astronômica Internacional.

Outro evento notável durante a gestão de Morize foi a observação do eclipse total do sol em 29 de maio de 1919, em Sobral. A expedição era composta por brasileiros e dois ingleses. A equipe brasileira dedicou-se a estudar a coroa solar e a inglesa a obter fotografias para analisar os efeitos da curvatura da luz previstos pela relatividade geral de Einstein. Em meados de julho, os ingleses voltaram a sobral para fotografar o mesmo campo estelar, agora sem a presença do Sol. A comparação entre as fotos dos dois momentos permitiria confirmar, ou não, a relatividade geral. A confirmação, anunciada no final daquele ano, deu reputação mundial a Einstein. Este, em visita ao Brasil em 1925, disse: “A questão que minha mente formulou foi respondida pelo radiante céu do Brasil”.

Morize morreu em 1930 e para seu lugar foi chamado um nome externo ao observatório: Sodré da Gama. Isso se deveu a disputa interna no observatório. Preocupou-de com que o observatório não se descuidasse das suas atividades de rotina. A principal força científica dessa época era o astrônomo Domingos Costa que tentou construir um observatório astrofísico na Serra da Bocaina. A verba foi conseguida e chegaram a importar equipamentos da empresa alemã Zeiss, famosa no fabrico de lentes, instrumentos ópticos e planetários. Entretanto, o início da Segunda Guerra Mundial interrompeu o fornecimento de equipamentos e o trabalho para a escolha do sítio do novo observatório.

Houve uma queda brusca na produtividade do observatório. Em 1951, após a morte de Sodré Gama, Lélio Gama, que se dedicava ao geomagnetismo assumiu a direção e passou a novamente a tirar a instituição do estado de letargia. Nesse mesmo ano foi criado o Conselho Nacional de Pesquisa (atual CNPq), e, Lélio Gama contou muito com o apoio desse novo orgão governamental.

Mesmo com a retomada da produtividade do observatório, que se deu mais para o lado do geomagnetismo, a astronomia sofria com as más instalações de São Cristóvão. A poluição luminosa impedia a realização de pesquisas científicas. Poucos eram os funcionários e o observatório não os formava. A pós graduação só se tornaria realidade quase três décadas depois, quando, devido a uma crise nointerior da Universidade Mackenzie, em São Paulo, fez com que o grupo de radioastronomia e a estrutura da pós-graduação se transferissem para o Rio de Janeiro, dando início a formação de astrônomos profissionais.

Em 1957 se iniciou a colaboração entre o Institudo Astronômico e Geofísico, da Universidade de São Paulo, IAG/USP, por ocasião do Ano Geofísico Internacional. Lélio Gama e Abraão de Morais, diretor do IAG, lutaram por essa colaboração.

Em meados da década de 1960, foi criada a Comissão brasileira de Astronomia, CAB, que passou a ser responsável pela astronomia no Brasil no que diz respeito a acordos internacionais. Com a CAB foi possível retomar a construção de um observatório astrofísico em um sítio mais conveniente que o de São Cristóvão.

Em 1967, Muiz Baerreto foi nomeado sucessor de Lélio Gama, que teve que se aposentar compulsoriamente.

A construção do Observatório Astrofísico Brasileiro teve uma série de obstáculos e só foi realizada graças ao espírito de colaboração entre ON e IAG. Foi inaugurado em 1981, em Brasópolis (MG) e desmembrado em 1985 para dar origem ao Laboratório Nacional de Astrofísica, LNA.

Nesse mesmo ano foi criado o Museu de Astronomia, MAST, que seria responsável pela preservação e pelo estudo da memória científica do ON. Sua sede foi o antigo prédio do Observatório, no mesmo Campus.

Astronomia Hoje

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A astronomia brasileira, graças a esses precursores que lutaram com tanta dedicação pela ciência pura, é reconhecida mundialmente como de altíssima qualidade. A linha chefe das pesquisas brasileiras é a astrofísica estelar, apesar de possuirmos profissionais e trabalhos de excelência e praticamente todas as áreas da Astronomia.

Os equipamento do LNA são utilizados em toda sua capacidade. O desenvolvimento da astronomia e da astronáutica em nível mundial, acompanhando o desenvolvimento humano, levaram às colaborações ou consórcios internacionais, que permitiram a construção de grandes observatórios com instrumentos capazes de observar em todas as áreas do espectro eletromagnético.

Na astronáutica, o Brasil deu um grande passo quando entrou para a colaboração com a Estação Espacial Internaciona, ISS (do inglês International Space Station).

Apêndice 1 – Nossos Índios, Os Gregos e a Via-Láctea

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Via-Láctea significa duas coisas distintas. É o nome da nossa Galáxia e também é uma extensa faixa esbranquiçada que cruza o céu, e só pode ser convenientemente observada longe de poluição luminosa. Observando essas faixa esbranquiçada, os gregos criaram uma lenda que a explicava como sendo um caminho de leite (via láctea) derramado do seio de uma deusa que foi enganada e induzida a amamentar uma criança, filho bastardo de seu irmão.

Hoje sabemos que essa região esbranquiçada é o plano do disco da nossa Galáxia, e sua tonalidade clara difere do fundo negro do céu pela maior concentração de estrelas nessa região.

A lenda grega dizia, resumidamente, que: Hércules era filho de Zeus, um imortal, com uma mortal, Alcmena. Zeus enganou sua irmã Hera para conseguir que ela amamentasse o menino, a fim de torná-lo um imortal. Para isso, contou a ajuda das ninfas da floresta, que fingiram ter encontrado a criança abandonada na mata, e rogaram à hera que amamentasse a pobre criança, pois chorava e parecia estar faminta. Hera assim o fez, mas quando percebeu o que estava acontecendo, empurrou a criança e parte de seu leite foi derramado, formando a Via Láctea.

As palavras que utilizamos hoje para fazer referência à objetos galácticoe e extragalácticos têm origem graga:

Galáxia        – [math]\Gamma\alpha\lambda\alpha\xi i\’ \alpha\varsigma[/math], (galaxias [grego])    – círculo de leite
Galáctico        – galaktos [grego]                – relativo ao leite
Via Láctea    – caminho de leite [latim]

As manchas escuras que nossos índios observavam na Via-Láctea são nebulosas de absorção, regiões no espaço com gás e poeira que absorvem a radiação vinda de objetos  mais distantes. Uma das mais populares no céu do hemisfério Sul é o Saco do Carvão, próximo ao Cruzeiro do Sul.

Apêndice 2 – A Carta de Mestre João

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Abaixo está a original da carta de Mestre João, e uma adaptação ao português moderno.

Señor
O bacharel mestre Johan fisico e cirurgyano de Vosa Alteza beso vosas reales manos. Señor porque de todo lo aca pasado largamente escrivieron a vosa alteza asy arias correa como todos los otros solamente escrevire dos puntos senor ayer segunda feria que fueron 27 de abril descendimos em terra yo e el, pyloto do capitan moor e el pyloto de Sancho de touar e tomamos el altura del sol al medyodya e fallamos 56 grados e la sonbra era septentrional por lo qual segund las reglas del estrolabio jusgamos ser afastados de la equinocial por 17 grados, e por consyguiente tener el altura del polo antarctico en 17 grados, segund que es magnifiesto en el espera e esto es quanto alo uno, por lo qual sabra vosa alteza que todos los pylotos van adiante de mi en tanto que pero escolar va adiante 150 leguas e otros mas e otros menos: pero quien disse la verdad non se puede certyficar fasta que en boa ora allegemos al cabo de boa esperança e ally sabremos quien va mas cierto ellos con la carta e con el estrolabio: quanto Señor al sytyo desta terra mande vosa alteza traer un mapamundy que tyene pero vaaz bisagudo e por ay podrra ver vosa alteza el sytyo desta terra, en pero aquel mapamundy non certyfica esta terra ser habytada, o no: es napamundi antiguo e ally fallara vosa alteza escrita tan byen la mina: ayer casy entendimos per aseños que esta era ysla e que eran quatro e que de otra ysla vyenen aqui almadias a pelear con ellos e los lleuan catiuos: quanto Señor al otro puncto sabra vosa alteza que cerca de las estrellas yo he trabajado algo de lo que he podido pero non mucho a cabsa de una pyerna que tengo mui mala que de una cosadura se me ha fecho una chaga mayor que la palma de la mano, e tan byen a cabsa de este navio ser mucho pequeno e mui cargado que non ay lugar pera cosa ninguna solamente mando a vosa alteza como estan situadas las estrellas del, pero en que grado esta cada una non lo he podido saber, antes me paresce ser impossible en la mar tomarse altura de ninguna estrella porque yo trabaje mucho en eso e por poco que el navio enbalance se yerran quatro o cinco grados de guisa que se non puede fazer synon en terra, e otro tanto casy digo de las tablas de la India que se non pueden tomar con ellas sy non con mui mucho trabajo, que si vosa alteza supiese como desconcertavan todos en las pulgadas reyrya dello mas que del estrolabio porque desde lisboa ate as canarias unos de otros desconcertavan en muchas pulgadas que unos desian mas que otros tres e quatro pulgadas, e otro tanto desde las canarias ate as yslas de cabo verde, e esto rresguardando todos que el tomar fuese a una misma ora, de guisa que mas jusgauan quantas pulgadas eran por la quantydad del camino que les paresçia que avyan andado que non el camino por las pulgadas: tornando Señor al proposito estas guardas nunca se esconden antes syenpre andan en derredor sobre el orizonte, e aun esto dudoso que non se qual de aquellas dos mas baxas sea el polo antartyco, e estas estrellas principalmente las de la crus son grandes casy como las del carro, e la estrella del polo antartyco, o sul es pequena como la del norte e muy clara, e la estrella que esta en riba de toda la crus es mucho pequena: non quiero mas alargar por non ynportunar a vosa alteza, saluo que quedo rogando a noso Señor ihesu christo la la vyda e estado de vosa alteza acresciente como vosa alteza desea. Fecha en uera crus a primero de maio de 500. pera la mar mejor es regyrse por el altura del sol que non por ninguna estrella e mejor con estrolabio que non con quadrante nin con otro ningud estrumento. do criado de vosa alteza e voso leal servidor.
Johannes
artium el medicine bachalarius.
Sobrescrito: A el Rey nosso senor
Nota quinhentista: De mestre Johã q vay ha Callecut.

Adaptação:

Senhor:
O bacharel mestre João, físico e cirurgião de Vossa Alteza, beijo vossas reais mãos. Senhor: porque, de tudo o cá passado, largamente escreveram a Vossa Alteza, assim Aires Correia como todos os outros, somente escreverei sobre dois pontos. Senhor: ontem, segunda-feira, que foram 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho de Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17°, e ter por conseguinte a altura do pólo antártico em 17°, segundo é manifesto na esfera. E isto é quanto a um dos pontos, pelo que saberá Vossa Alteza que todos os pilotos vão tanto adiante de mim, que Pero Escolar vai adiante 150 léguas, e outros mais, e outros menos, mas quem diz a verdade não se pode certificar até que em boa hora cheguemos ao cabo de Boa Esperança e ali saberemos quem vai mais certo, se eles com a carta, ou eu com a carta e o astrolábio. Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos. Quanto, Senhor, ao outro ponto, saberá Vossa Alteza que, acerca das estrelas, eu tenho trabalhado o que tenho podido, mas não muito, por causa de uma perna que tenho muito mal, que de uma coçadura se me fez uma chaga maior que a palma da mão; e também por causa de este navio ser muito pequeno e estar muito carregado, que não há lugar para coisa nenhuma. Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do (sul), mas em que grau está cada uma não o pude saber, antes me parece ser impossível, no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão em terra. E quase outro tanto digo das tábuas da Índia, que se não podem tomar com elas senão com muitíssimo trabalho, que, se Vossa Alteza soubesse como desconcertavam todos nas polegadas, riria disto mais que do astrolábio; porque desde Lisboa até às Canárias desconcertavam uns dos outros em muitas polegadas, que uns diziam, mais que outros, três e quatro polegadas, e outro tanto desde as Canárias até às ilhas de Cabo Verde, e isto, tendo todos cuidados que o tomar fosse a uma mesma hora; de modo que mais julgavam quantas polegadas eram, pela quantidade do caminho que lhes parecia terem andado, que não o caminho pelas polegadas. Tornando, Senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam ao derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual de aquelas duas mais baixas seja o pólo antártico; e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro; e a estrela do pólo antártico, ou Sul, é pequena como a da Norte e muito clara, e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. Não quero alargar mais, para não importunar a Vossa Alteza, salvo que fico rogando a Nosso Senhor Jesus Cristo que a vida e estado de Vossa Alteza acrescente como Vossa Alteza deseja. Feita em Vera Cruz no primeiro de maio de 1500. Para o mar, melhor é dirigir-se pela altura do sol, que não por nenhuma estrela; e melhor com astrolábio, que não com quadrante nem com outro nenhum instrumento. Do criado de Vossa Alteza e vosso leal servidor.
Johannes
artium et medicine bachalarius

Referências

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Carta_do_Mestre_João

http://en.wikipedia.org/wiki/Valentin_Stansel

História do Observatório Nacional, de Antônio Augusto Passos Videira,

Cinquenta Anos da Cruiação do Curso de Astronomia do Observatório do Valongo, Série Memorabilia (vários autores)

Notas de Rodapé

1 – Mais detalhes no Apêndice 1 /voltar ao texto
2 – A carta original e uma adaptação ao português do Brasil estão no Apêndice 2 /voltar ao texto
3 – Provavelmente uma referência a um asterismo na constelação da Ursa Maior. Asterismo é um pequeno grupo notável de estrelas mas que não se constitui em uma constelação oficial, como as Três Marias, que são uma parte da constelação do Órion. /voltar ao texto
4 – Essa passagem me parece bastante curiosa. Mestre João se refere à estrelas que estão bastante próximo dos pólos celestes, que são pontos imaginários onde o prolongamento do eixo de rotação da Terra “fura” a esfera celeste. No hemisfério norte, há, de fato, a estrela Poláris, fácil de ser identificada. Mas no hemisfério sul não uma estrela de fácil visualização, como a Poláris, indicando a posição aproximada do pólo sul celeste. A melhor que temos é a “sigma do octante”, bem menos brilhante que a Polaris do hemisfério norte. /voltar ao texto
5 – Chamamos a isso de trânsito. /voltar ao texto