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Admirável Mundo Novo

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Aldous Huxley, Editora Abril S.A., 1974. (Capa dura, marrom, com detalhes dourados.)

(Esse texto tem comentários sobre o enredo, mas foi escrito de modo a não comprometer o prazer da leitura e oferecer breves informações sobre o contexto da história e da confecção da obra)

Exatamente essa edição só pode ser encontrada hoje com alguma sorte no mercado de livros antigos, mas há várias edições modernas que podem ser facilmente encontradas.

Aldous Huxley nasceu na Inglaterra, em 26 de julho de 1894, e faleceu em 22 de novembro de 1963, mesmo dia do assassinato do presidente norte-americano John F. Kennedy. Era um homem interessado em ciência, mas, principalmente, em valores humanos. Admirável mundo novo foi escrito em 1932, e é uma obra clássica da ficção científica. Deve ser lido não só pela descrição futurística de uma sociedade altamente desenvolvida tecnologicamente, mas por outro aspecto muito mais importante: as
conseqüências desse desenvolvimento no aspecto humano, vistas pelo autor.

O título desse livro foi retirado de A tempestade, de William Shakespeare, Ato V, Cena I:

Ó, maravilha!
Que adoráveis criaturas aqui estão!
Como é belo o gênero humano!
Ó admirável mundo novo
Que possui gente assim!”

Essas linhas podem ser consideradas uma ironia para fazer referência à sociedade descrita por Huxley. Mas traduzem bem a esperança que ele depositava no potencial humano.

O prefácio do autor foi escrito cerca de vinte anos depois do livro. Nele, Aldous Huxley diz que verifica falhas artísticas em seu livro, e que o teria escrito de maneira diferente naqueles dias, inclusive alterando detalhes do enredo. É bastante impressionante ler essa autocrítica e verificar sugestões do próprio autor que poderiam tornar a obra ainda mais interessante.

O livro fala de problemas humanos em uma sociedade que funciona sob um sistema de castas. Cada membro da sociedade nasce em um centro de incubação, onde pessoas são produzidas em série. Os processos de fecundação sofrem manipulações que tornarão os futuros cidadãos mais propícios a serem condicionados para pertencerem às castas às quais foram designados. As castas são referenciadas por letras gregas. Desde criança, cada pessoa recebe instruções que determinarão seu papel na sociedade, e que a impedirão de tentar mudar esse papel, pois pertencer a um grupo de outra letra grega é ruim. Até que, um dia, a manipulação de um determinado cidadão não sai exatamente como deveria, e ele se torna menos propício à programação mental, se transformando num adulto questionador.

A sociedade desse admirável mundo novo possui outros mecanismos controladores além da fecundação assistida e das sugestões. Existe uma droga, chamada soma, que proporciona prazer em caso de sentimento de insatisfação por qualquer motivo. Descobre-se, por exemplo, que existe um controle literário, e que livros antigos considerados prejudiciais à sociedade não chegam ao público. Apenas poucos exemplares existem, muito bem guardados. Isso lembra algum episódio passado em nossa História? O mesmo mecanismo de dominação social utilizado pela Igreja na Idade Média aparece nesse futuro de Aldous Huxley. Por falar em religião, a filosofia industrial do tempo de Huxley aparece no quase endeusamento que a sociedade faz de Henry Ford.

Sexo é sempre algo casual e com fim unicamente recreativo. De maneira alguma visa procriação. Em uma área reservada do resto da sociedade existem pessoas que nascem e morrem da maneira antiga. Trata-se de uma espécie de reserva que recebe a visita de turistas interessados em ver essas criaturas exóticas. Nesse lugar, uma espécie de zoológico humano, onde existem os problemas de qualquer meio social renegado, surge mais um protagonista da história, que fica conhecido como Selvagem.

Um aspecto interessante que deve ser notado na trama é que o controle social não é algo intrinsecamente mau, planejado por uma mente demoníaca. Ao contrário, a sociedade como um todo parece funcionar muito bem e todos são essencialmente felizes. Huxley coloca nesse livro, e em outros, problemas éticos humanos. Parece que foi devido a sua preocupação com a humanidade e seu pacifismo que Huxley teve seu pedido de cidadania norte-americana negado, pois ele não teria dito que pegaria em armas para defender os Estados Unidos.

Admirável mundo novo agrada, infalivelmente, os amantes de ficção científica, que têm uma sociedade inteira descrita por esse visionário do futuro. E nos convida a pensar sobre a importância de se resolver questões humanas em paralelo a questões tecnológicas.

Por Leandro L S Guedes

Astrônomo, Diretor de Astronomia da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, Msc., Dr., Astrofísica Extragaláctica, História e Filosofia da Ciência.