Trilha sonora recomendada como fundo musical para a leitura desse artigo: tema do seriado Arquivo X ou Além da Imaginação .

Jocelyn Bell
Jocelyn Bell

Em julho de 1967, a jovem estudante de pós-graduação em Astronomia Jocelyn Bell , nascida em 15 de julho de 1943, e seu orientador Antony Hewish, nascido em 11 de maio de 1924, ambos vivos (dezembro de 2009), descobriram uma fonte de emissão de radiação com um comportamento nunca antes observado. A fonte emitia a radiação em pulsos com uma regularidade impressionante. A descoberta foi batizada de LGM-1.

O que Jocelyn e seu orientador observaram foi um tipo de objeto celeste que chamamos de pulsar , uma expressão que vem da contração das palavras da língua inglesa pulsating e star. A expressão significa, literalmente, estrela pulsante, numa referência aos pulsos de radiação observados.

Quando uma estrela de grande massa morre, ou seja, não tem mais condições para gerar energia por meio da fusão nuclear dos átomos em seu interior, sua força gravitacional faz com que a estrela colapse. Sobra então um corpo central muito denso, e o material restante da estrela é bruscamente expulso para o meio interestelar. Esse evento é o que chamamos de supernova . O corpo central remanescente pode ser um buraco negro ou uma estrela de nêutrons.

hewish
Antony Hewish

Uma estrela de nêutrons típica possui entre 10 e 20km de raio, ou seja, são objetos astronômicos pequenos. São também objetos muito massivos e possuem fortes campos magnéticos. Representamos os campos magnéticos de uma estrela ou planeta através de linhas que saem de um ponto da superfície do astro e retornam em um ponto diametralmente oposto. Convencionou-se chamar esses pontos opostos de pólos norte e sul magnéticos – não confunda com os pólos norte e sul geográficos!

Os campos magnéticos podem capturar partículas carregadas que irão espiralar em torno das linhas do campo e serão aceleradas em direção aos pólos. Nas proximidades dos pólos magnéticos da estrela de nêutrons, sob alta aceleração, as partículas emitem grande quantidade de radiação.

Um detalhe importante é que, em geral, o eixo que liga os pólos magnéticos da estrela de nêutrons não coincide com seu eixo de rotação. A mesma coisa acontece na Terra, e é por isso que a agulha da bússola não aponta exatamente o norte ou o sul geográfico. O que temos então é uma estrela de nêutrons que gira muito rapidamente, podendo completar uma rotação em milissegundos ou pouco mais de um segundo, e que possui fortes fontes de emissão de radiação que não coincidem com o eixo de rotação. Ou seja, um observador fora da estrela de nêutrons vê esses pontos girarem em torno do eixo de rotação. O que acontece se essa estrela de nêutrons estiver posicionada de maneira que a cada rotação um dos pólos magnéticos, de onde sai radiação intensamente, aponte diretamente para a Terra? O que observamos quando apontamos um telescópio para essa estrela de nêutrons? Pulsos de radiação! Nesse caso, chamamos essa estrela de nêutrons de pulsar.

Representação de um pulsar. Seu eixo de rotação não coincide com os pólos magnéticos.
Representação de um pulsar. Seu eixo de rotação não coincide com os pólos magnéticos.

Os primeiros planetas extra-solares descobertos foram encontrados em torno do pulsar PSR B1257+12, a cerca de 980 anos-luz de nós, na constelação de Virgem. Primeiramente, detectaram-se dois planetas orbitando o pulsar, e observações subseqüentes indicaram a existência de um terceiro. Existem indícios ainda da existência de cometas ou asteróides no sistema de PSR B1257+12. Apesar de outros pulsares também apresentarem sistemas planetários, é bastante improvável a existência de vida nesses sistemas, devido às intensas radiações nas proximidades de uma estrela de nêutrons.

Cycle_of_pulsed_gamma_rays_from_the_Vela_pulsar
Animação mostrando pulso do Pulsar da Vela. As emissões vistas nessas imagens são raios gamma (http://svs.gsfc.nasa.gov/goto?10426).

Os pequenos homens verdes… bom, é melhor desligar o fundo musical do Arquivo X ou do Além da Imaginação agora. Quando Jocelyn Bell e Antony Hewish descobriram o primeiro pulsar, hoje chamado de PSR B1919+21, ficaram impressionadíssimos com a regularidade dos pulsos. Os pulsos de um pulsar, em geral, têm a precisão comparável com a de um relógio atômico! Não é comum percebermos eventos naturais tão regulares assim. Suspeitaram, então, que estavam observando uma fonte de emissão artificial, desenvolvida por seres alienígenas, e batizaram sua descoberta com a sigla em inglês para little green men – pequenos homens verdes – seguida do número um: LGM-1. Há quem diga que essa idéia nunca foi levada a sério realmente, e há quem diga que o LGM-1 levou cientistas a debater seriamente o que deveriam fazer se confirmassem a natureza inteligente dos pulsos. A História da Ciência às vezes é controvertida mesmo em tempos recentes.

Mas a busca por vida alienígena, verde ou não, continua! Longe das estrelas de nêutrons.

Publicado por Leandro L S Guedes

Sou Astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, faço doutorado no curso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, pela UFRJ, e nesse ano de 2013 estou passando alguns meses na Universidade de Notre Dame, EUA. Tenho interesses em: Astronomia, História, Epistemologia, Filosofia da Ciência.

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