Categorias
História e Filosofia

Os Transnetunianos

Esse texto foi publicado originalmente em agosto de 2006 na Curiosidade do Mês no folder e site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro. Nesse mesmo mês de agosto de 2006, a IAU criou uma nova classificação de objetos do sistema solar (planetas anões), que incorporou alguns transnetunianos, incluindo Plutão, e o antigo asteróide Ceres. Também modificou o nome de 2003UB 313 para Eris. O Texto foi republicado aqui como registro histórico do momento.

iau0601c
Comparação de tamanho entre a Terra e alguns transnetunianos conhecidos (Imagem, IAU)

No início da década de 1950, apareceu no cenário astronômico a idéia de que, a partir de Netuno, deveria haver milhares de corpos pequenos, rochosos e gelados, assim como o planeta Plutão, descoberto em 1930. Duas estruturas apareciam no Sistema Solar. Uma é a nuvem de Oort, uma espécie de casca esférica circundando todo o Sistema Solar, com raio de cinqüenta mil vezes a distância entre a Terra e o Sol. Da nuvem de Oort vêm os cometas que completam uma volta em torno do Sol em mais de duzentos anos. A outra estrutura se inicia na região da órbita de Netuno e se estende até cerca de cem vezes a distância entre a Terra e o Sol. Está aproximadamente no mesmo plano das órbitas dos planetas echama-se cinturão de Kuiper. Do cinturão de Kuiper vêm os cometas que completam uma volta em torno do Sol em menos de duzentos anos.

Nos limites do cinturão de Kuiper existe uma região conhecida como disco disperso, queliga esse cinturão à nuvem de Oort. Esses gelados e pequenos corpos que compõem a nuvem de Oort, o cinturão de Kuiper e o disco disperso são chamados de objetos transnetunianos.

Devido às pequenas dimensões e às grandes distâncias em que se encontram, os transnetunianos só começaram a ser observados recentemente. Entre os mais populares estão Quaoar, descoberto em 2002, Sedna e 2003UB 313 , ambos descobertos em 2003. Este último trouxe à tona uma antiga discussão sobre a classificação de Plutão.

2003UB 313 é um transnetuniano maior que Plutão. Por isso, foi levantada a questão de se ele não deveria ser classificado também como planeta. A imprensa chegou a noticiar a “descoberta do décimo planeta”…

O Sistema Solar continua tendo apenas nove planetas. É importante, entretanto, entender que consideramos Plutão um planeta apenas por razões históricas. Na época de sua descoberta, ainda não havia a idéia de que após Netuno deveríamos encontrar vários corpos pequenos e gelados. Se Plutão fosse descoberto hoje, seria classificado da mesma forma que Quaoar, Sedna, 2003UB 313 e vários outros, como um objeto transnetuniano.

O debate sobre a classificação de 2003UB 313 nos fez perceber que não existe uma definição boa de ‘planeta’. Os dicionários dizem que planeta é um corpo iluminado pelo Sol e que gira em torno dele. Ok, isso é um planeta, mas nem todo corpo iluminado pelo Sol que gira em torno dele é um planeta, pois também temos cometas, asteróides, satélites dos planetas, poeira interplanetária… todos esse são membros do Sistema Solar, que giram ao redor do Sol, são iluminados por ele, e não são planetas. Além disso, já descobrimos muitos planetas girando ao redor de outras estrelas além do Sol.

Quem regula a nomenclatura e a classificação dos objetos celestes é a União Astronômica Internacional, ou IAU ( International Astronomical Union ). A IAU planeja para esse mês de agosto uma reunião na qual se tentará chegar a uma definição de planeta. Depois disso, pode ser que, pela primeira vez, de fato, Plutão mude de classificação ou que 2003UB 313 seja mais um planeta do Sistema Solar.
Apesar de parecer nome de uma ameaçadora civilização extraterrestre, os transnetunianos são membros da família Solar. E não têm nada de ameaçadores. Pequeninos e distantes, são fundamentais para o entendimento do nosso Sistema Solar.

Uma versão resumida desse texto foi publicada em agosto de 2006 na Curiosidade do Mês no folder e site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro

Por Leandro L S Guedes

Astrônomo, Diretor de Astronomia da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, Msc., Dr., Astrofísica Extragaláctica, História e Filosofia da Ciência.