

A ideia do planeta X era uma obsessão para o astrônomo Percival Lowell. Os últimos oito anos de sua vida foram dedicados à busca de um misterioso corpo que se encontrava após o último planeta conhecido, Netuno. Estamos falando do início do século XX. Infelizmente, Lowell faleceu em 13 de novembro de 1916, mas a sua busca pelo estranho objeto continuou e, em fevereiro de 1930, Clyde Tombaugh, um discípulo de Lowell, consegue descobrir o objeto que seria denominado planeta Plutão. Diversos historiadores sugerem que o símbolo de Plutão, PL, são as iniciais do Lowell.
Durante vários anos, após a descoberta, astrônomos que estudavam o comportamento tanto de Netuno quanto de Plutão não conseguiram calcular as suas órbitas com a precisão desejada. A massa deste era muito pequena para que pudesse influenciar gravitacionalmente Netuno e mostrasse todas as anomalias em sua órbita.
O astrônomo Frederic Leonard, em 1930, foi o primeiro a sugerir a hipótese da existência de outros objetos posteriores à órbita de Netuno. A estes objetos, Leonard denominou ultranetunianos. (Atualmente utilizamos o nome de transnetuniano, mas não vamos adiantar a história…)

Em 1943, o astrônomo irlandês Keneth Edgeworth propôs uma teoria sobre prováveis materiais que deveriam ser encontrados após a órbita de Netuno. Em sua teoria, estes materiais seriam restos da nuvem que formou o Sistema Solar e, por estarem muito dispersos, não dariam origem a novos planetas, mas apenas a um grande número de corpos de pequena dimensão. Estes objetos, segundo a sua teoria, dariam origem aos cometas que, por terem sofrido interações gravitacionais com os demais, entrariam para as regiões mais internas do Sistema Solar.

Gerard Kuiper, em 1951, aparece com uma nova teoria. Alguns autores dizem que foi baseada na teoria de Edgeworth, porém, como era padrão na época assumir que Plutão possuía a mesma massa da Terra, ele previu que os pequenos corpos teriam sido espalhados para uma região do céu mais afastada, conhecida como Nuvem de Oort, onde, hoje sabemos, se encontram trilhões de cometas.
Durante muito tempo, as teorias de Frederic Leonard, Keneth Edgeworth e de Gerard Kuiper ficaram sem comprovação.
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Em 1988, iniciou-se um trabalho capitaneado pelos astrônomos David Jewitt, da Universidade do Havaí, e Jane Luu, da Universidade da Califórnia, de busca pelos tais objetos do cinturão de Kuiper (alguns autores preferem a nomenclatura de Edgeworth-Kuiper).
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Existe uma pequena controvérsia em relação a qual objeto deve ser considerado o primeiro objeto do cinturão de Kuiper descoberto. O objeto1992 QB1 foi o primeiro a ser fotografado, porém sua imagem só foi analisada em 1993, após a análise do objeto 1993 FW. Quem deve ser considerado o primeiro? 1992 QB1 por ter sido o primeiro a ser fotografado ou 1993 FW por ter sido estudado?
A partir das descobertas destes novos corpos, a comunidade astronômica tem um novo problema em suas mãos: o que fazer com estes novos corpos? Qual denominação deve ser dada?
Em 2005, um novo problema apareceu: um objeto ainda maior que Plutão foi descoberto. A comunidade astronômica ficou dividida. Alguns diziam (principalmente os americanos) que Plutão deveria continuar sendo chamado de planeta, e outros queriam reclassificá-lo. Mike Brown, o descobridor do objeto da discórdia, ficou em uma situação embaraçosa, pois ele é americano e poderia desqualificar o único planeta descoberto por outro americano.
A controvérsia assume proporções inimagináveis. A opinião pública toma partido de um lado e de outro, e a União Astronômica Internacional cria uma comissão composta por profissionais de diversas áreas, como astrônomos, historiadores, etc., e produzem a primeira classificação baseada em argumentos dinâmicos para os planetas.
No dia 24 de agosto de 2006, durante uma plenária ocorrida na Assembleia Geral da União Astronômica Internacional, realizada em Praga, na República Tcheca, adotou-se os seguintes critérios para a classificação:
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- O corpo precisa possuir uma massa suficiente para que a sua autogravidade deixe o objeto com uma forma esférica;
- Tem de girar em torno do Sol;
- Não pode ser uma lua de um planeta;
- Tem de ter limpado a sua órbita através de interações gravitacionais ou ter utilizado o material de sua órbita para a sua formação.
O quarto item exclui Plutão da categoria de planeta. Assim, todos os objetos que, como Plutão, só atendem aos três primeiros critérios são chamados de planetas anões.

Uma coisa interessante é que Ceres, descoberto em função da busca de um objeto baseada na Lei de Titus-Bode (uma lei empírica sem nenhum fundamento científico encontrado até agora) que previa as órbitas dos planetas, passou da categoria de asteroide (pois se encontra no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter) à de planeta anão, sendo o mais próximo destes objetos do planeta Terra.
Atualmente, trabalhos têm sido desenvolvidos no sentido de tentar explicar detalhadamente a origem do cinturão de Kuiper. Dos diversos trabalhos realizados, a teoria que mais apresenta respostas acerca da origem e da evolução do Sistema Solar chama-se Modelo de Nice.
O Modelo de Nice foi desenvolvido por astrônomos franceses e pelo brasileiro Rodney Gomes, pesquisador do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro. Este modelo propõe que os planetas gasosos tinham suas órbitas permeadas por uma grande quantidade de material e estariam muito mais próximos entre si que o observado atualmente. Através de interações gravitacionais, estes planetas foram deslocados para as suas atuais órbitas e o material entre eles foi lançado para uma região posterior a Netuno e também para as regiões mais internas do Sistema Solar.
O modelo explica muito bem a origem da Nuvem de Oort, o aprisionamento de parte do material pela força gravitacional de Netuno que deu origem ao cinturão de Kuiper, a formação do cinturão de asteroides, os satélites troianos de Júpiter e, por fim, o bombardeamento tardio que sofreram os planetas interiores, podendo ser facilmente observados os seus resultados na nossa Lua, através de um pequeno telescópio.
3 respostas em “Objetos do Cinturão de Kuiper”
Faltou uma justa referência ao trabalho do Julio Fernández quando este já estava no Observatório do Valongo. (http://www2.ess.ucla.edu/~jewitt/kb/migrate.html)
Muito legal essa referência! E citada pelo próprio Dave Jewitt!
Caríssimo Klafke!
Muito obrigado pela lembrança. Suas colocações são sempre bem vindas e enriquecem nossos conhecimentos.
Aguardo novas participações.
Grato.