Recebi um e-mail há algumas semanas atrás do Fernando de Azevedo Alves Brito, que me enviou uma questão muito interessante. Ele estava intrigado com um objeto que sobre o qual viu referência nas coordenadas 22h35m55s de ascensão reta e -04d25m15s de declinação. Eis a imagem que aparece no Google Sky e que o Fernando me enviou:

faabrito-I

Minha impressão imediata e apressada (nada feito com pressa sai bem feito!) é de que se tratava de uma nebulosa que, por algum motivo, o Google não tinha exibido o nome ou referência de catálogo. Ou que, era apenas algum erro gráfico do Google.

Fui procurar a tal “nebulosa” nas minhas cartas celestes e não encontrei. Procurei numa coleção de livros que mostra diversas áreas do céu com sues objetos mais notáveis e não encontrei. Procurei nos softwares que utilizo, Stellarium, Celestia, Kstars e The Skye e nada. Resolvi, então, ir no melhor recurso que temos para conhecer o que se tem catalogado sobre o céu, a base de dados SIMBAD.

Procurei pelo intrigante objeto naquelas coordenadas, e não encontrei nada. Nem na lista de objetos fornecida pela base dedados nem na imagem daquela região do céu. O problema poderia estar resolvido… era algum erro gráfico do Google. Mas fui aumentando a área do céu em torno das coordenadas e quando cheguei em 5 minutos de arco, o objeto apareceu. Apenas na imagem e não na lista de objetos. Ou seja, a base de dados SIMBAD estava me mostrando alguma coisa no céu que não estava catalogada na lista de objetos… Ainda bem que não havia nenhum ufólogo crente em teorias de conspiração do meu lado! Veja a imagem do SIMBAD, numa área de 5 minutos de arco.

faabrito-II

Mais uma vez, cheguei a uma conclusão razoável, tão razoável quanto errada: esse objeto ainda não foi catalogado, talvez por dificuldade em se obter informações espectroscópica que pudesse garantir se trata-se de uma remanescente de supernova, uma nebulosa planetária, por exemplo.  Estou aprendendo a dar algum valor à minha intuição e considerar menos cegamente o que diz o meu raciocínio… Essa aventura com o Fernando me ajudou muito a prestar atenção nisso.

Expliquei para ele por e-mail o que havia encontrado sobre a intrigante “nebulosa” e concluí que era um objeto que havia sido observado mas não catalogado ainda, e que isso seria certamente feito em breve.

Para minha felicidade, o Fernando não ficou totalmente satisfeito e continuou intrigado. Isso é um grande erro que a ciência comete muitas vezes: se contentar com uma boa explicação e parar de pensar no assunto. Muitas vezes uma boa explicação não tem nada de correta.

Ele fez a mesma pergunta ao pessoal do Laboratório Nacional de Astrofísica, LNA,  e eles tinham a resposta:

“A imagem mostrada não é um objeto astronômico. Trata-se de um defeito na imagem. Esta imagem aparece de fato no catálogo do Sloan Digital Sky Survey (DSS), que é utilizado como base para o Google Sky, Digital Telescope e Sky Map, mas pela forma, tamanho e cor trata-se de um problema na emulsão fotográfica (o DSS foi digitalizado em 1994 a partir de fotografias obtidas no Palomar e no ESO nos anos 70). Nas imagens abaixo mostramos a fotografia na coordenada em questão, tiradas na mesma noite em três diferentes filtros: Blue, Red, InfraRed – o defeito só aparece no filtro Red (vermelho). Se fosse uma estrela, apareceria no InfraRed (infravermelho) também, e se fosse um corpo no Sistema Solar refletindo a luz do Sol apareceria no Blue (azul).

Este defeito não aparece em outras imagens de outros catálogos, seja no visível, seja no infravermelho. Se você quiser conferir, segue o link das imagens originais https://archive.stsci.edu/cgi-bin/dss_form (coloque as coordenadas nos campos AR e DEC e aperte “Retrive Image”. Verá que o defeito só aparece no filtro RED). Pelo tamanho angular que aparece na imagem – ~60 segundos de arco (maior que o diâmetro aparente de Júpiter) – ele seria visível para qualquer telescópio pequeno e até mesmo a olho nu. Como a imagem é dos anos 70, se fosse qualquer coisa se movendo próximo ou em direção ao Sistema Solar ou já teria chegado ou já teria passado.

faabrito-III

faabrito-IV

Imagens do DSS mostrando o artefato de imagem no filtro RED (a) e não nos filtros Blue e IR (b) (c) tiradas na mesma noite, nem na imagem do Sloan DSS feita depois (d).”

O pessoal do LNA foi direto na fonte do levantamento, o que não passou pela minha cabeça, que já estava satisfeita com a explicação

Essa é a história de um defeito fotográfico que foi associado em um vídeo sensacionalista à coisas por de trás de uma grande conspiração mundial que esconde a verdade sobre extraterrestres da população. E também a história de como aprendi a tomar mais cuidado ao identificar nebulosas em nos levantamentos fotográficos do céu.