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O Sul e o Cruzeiro do Sul

Foto de onga exposição do Cruzeiro do Sul, e parte da constelação do Centauro. Podemos ver ao fundo a Via-Láctea e a nebulosa de absorção conhecida como Saco de Carvão.
Foto de onga exposição do Cruzeiro do Sul, e parte da constelação do Centauro. Podemos ver ao fundo a Via-Láctea e, próximo ao Cruzeiro, a nebulosa de absorção conhecida como Saco de Carvão.

Nessa época do ano, podemos observar com facilidade nos céus do hemisfério sul uma constelação bastante especial: o Cruzeiro do Sul. É uma das poucas que não exigem muito esforço de imaginação para se associar seu nome a uma forma, e é também a menor das oitenta e oito constelações que dividem todo o céu que nos envolve. Além disso, a notável constelação é também um dos melhores pontos de partida para encontrarmos os pontos cardeais através das estrelas.

Quando procuramos nos guiar pelas estrelas, antes dos pontos cardeais, que estão no horizonte do observador, devemos encontrar um ponto especial no céu. Sabemos que a Terra executa um movimento de rotação ao redor de um eixo imaginário que liga o pólo sul ao pólo norte. Perpendicular a esse eixo, imaginamos um plano que divide a Terra em hemisfério Norte e hemisfério Sul. A intersecção desse plano imaginário com a superfície da Terra define o círculo que chamamos de Equador.

Se prolongarmos o eixo de rotação da Terra indefinidamente para além dos pólos norte e sul, ele irá “furar” o céu em dois pontos: o pólo sul celeste e o pólo norte celeste.

Partindo do Cruzeiro do Sul, devemos prolongar cerca de quatro vezes e meia a extensão do braço maior da cruz, no sentido da cabeça da cruz para o pé da cruz. Feche um olho e coloque um dedo na estrela da cabeça do Cruzeiro do Sul e outro na estrela que marca o pé do cruzeiro. Agora, procure manter a distância entre os dedos fixa e trace uma linha reta saindo da cabeça da cruz e indo para o pé dela, sendo que, quando passar do pé da cruz, a linha deve ter quatro vezes e meia a distância entre seus dedos. O ponto onde termina a linha que você traçou é o pólo sul celeste. Agora, basta descer uma linha vertical até o horizonte para encontrar o ponto cardeal Sul. Encontrado o Sul, sabemos que se estivermos de frente para ele, atrás de nós estará o Norte, à nossa esquerda o Leste e à direita o Oeste.

Existe uma noção errada de que o braço maior do Cruzeiro do Sul aponta sempre para o ponto cardeal Sul. Isso não é verdade, pois o céu está sempre se movendo, afinal, o movimento de rotação da Terra não pára. Assim, há momentos em que podemos notar o Cruzeiro do Sul tombado, com o pé da cruz apontando para qualquer ponto no horizonte. O Cruzeiro do Sul só aponta de fato para o Sul (ponto cardeal Sul) quando está exatamente em pé para um observador. A técnica de se encontrar o pólo sul celeste prolongando-se quatro vezes e meia o braço maior da cruz, no sentido da cabeça para o pé da cruz, independe da posição do Cruzeiro do Sul, pois o pólo sul celeste é um ponto fixo no céu.

Não temos nenhuma estrela brilhante que coincida com o pólo sul celeste. A mais próxima que poderíamos utilizar como referência é a Sigma do Octante. O pólo norte celeste possui uma estrela bem notável, a famosa Polaris que, por acaso, está localizada em nossa galáxia de modo a quase coincidir com o pólo norte celeste. Observadores no hemisfério Norte encontram essa estrela no céu e depois traçam uma linha vertical para o horizonte para encontrar o ponto cardeal Norte.

E se estivermos perdidos em uma floresta, precisando de orientação, mas não conseguimos ver o Cruzeiro do Sul? Existem outros alinhamentos possíveis para encontrarmos o pólo sul celeste a partir de estrelas de outras constelações. E se não vemos nenhuma estrela, por exemplo, no caso de uma tempestade? Nesse caso não podemos utilizar o céu para nos localizar, mas algum outro equipamento, como bússola ou o moderno sistema GPS.

E se também não tivermos bússola nem GPS? Bom, talvez seja melhor esperar a equipe de resgate.

Uma versão resumida desse texto foi publicada em abril de 2007 na Curiosidade do Mês no folder e site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro

Por Leandro L S Guedes

Astrônomo, Diretor de Astronomia da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, Msc., Dr., Astrofísica Extragaláctica, História e Filosofia da Ciência.