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História e Filosofia

O Mistério do Primeiro Planetário do Mundo

 Parte do Mecanismo de Antikythera
Parte do Mecanismo de Antikythera

Planetário é uma palavra que possui mais de um significado. Podemos chamar de planetário um espaço encimado por uma cúpula, no qual se projetam imagens que representam o céu real e objetos astronômicos. Mas planetário também é o nome do equipamento que faz a projeção propriamente dita. Além disso, instituições que possuem planetários são chamadas de Planetários, como a Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro. Os Planetários promovem a difusão científica através de atividades para o público, e produzem pesquisas científicas. São locais que devem ser obrigatoriamente freqüentados pelos que gostam de Astronomia.

Além desses equipamentos que projetam a configuração do céu, hoje falamos também em software planetário , que é um programa de computador capaz de criar cartas celestes mostrando a configuração do céu para uma dada região em uma dada época. De qualquer forma, podemos chamar de planetário algo que tenha o recurso de mostrar as configurações do céu. Mas o desejo de se conhecer o céu e os movimentos dos astros é bem mais antigo que qualquer software ou que qualquer aparelho que projete imagens. E restos de um dos mais antigos planetários podem ter sido encontrados no fundo do mar.

Em outubro de 1900, mergulhadores interessados em esponjas marinhas exploravam o mar nas proximidades da ilha grega Antikythera, quando, de dentro de seu escafandro, um dos mergulhadores avistou nas profundezas algo inesperado e imediatamente sinalizou para ser puxado à superfície. Suspeitando que seu homem estivesse sofrendo os efeitos de excesso de dióxido de carbono no capacete, o capitão do grupo de mergulhadores desceu para verificar. Voltou à tona com o pedaço de uma estatueta de bronze. Haviam descoberto um navio naufragado.

Juntamente com autoridades gregas, os mergulhadores coletaram diversos artefatos. Em 17 de maio de 1902, o arqueólogo grego Valerios Stais, que vasculhava o naufrágio, encontrou um artefato com uma roda dentada e outras peças intrincadamente conectadas. O achado de Valerios Stais ficou conhecido como mecanismo de Antikythera, e datado de cerca do ano 80 antes de Cristo.

Muitos estudos foram feitos para se tentar descobrir a serventia do tal mecanismo. Em 1959 e em 1974, o historiador da ciência Derek J. de Solla Price publicou dois artigos com seu trabalho sobre a misteriosa engenhoca, onde sugere que deveria ser um calendário capaz de representar movimentos de estrelas e planetas. Mais tarde, entre 2002 e 2005, Michael Wright, atualmente no Colégio Imperial, em Londres, reestudou o mecanismo de Antikythera. Chegou a um modelo de funcionamento bastante diferente do de Price, que também lhe dava a capacidade de reproduzir configurações do céu, mas bem mais elaboradas. Se esses estudos corresponderem à realidade, o mecanismo de Antikythera é o primeiro planetário encontrado do mundo.

Existem na literatura antiga descrições de máquinas astronômicas como o mecanismo de Antikythera. Há referências que dizem que Arquimedes (287 a.C. – 212 a.C.) possuía um desses. O primeiro planetário eletromecânico e óptico, como os que conhecemos hoje, foi desenvolvido em 1924 pelo alemão Carl Zeiss.

Uma versão resumida desse texto foi publicada em novembro de 2006 na Curiosidade do Mês no folder e site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro

Por Leandro L S Guedes

Astrônomo, Diretor de Astronomia da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, Msc., Dr., Astrofísica Extragaláctica, História e Filosofia da Ciência.