O problema da existência ou não de outros planetas habitados, sempre foi motivo de grande discussão. Desde tempos imemoriais, filósofos e homens de ciência dele se ocuparam. A partir da descoberta do primeiro planeta extrassolar em 1992 orbitando o pulsar PSR 1257, seguiram-se milhares de outros e hoje sabemos que não estamos sozinhos no universo, não somos uma civilização especial e muito menos centro da criação e privilegiados pelo grande arquiteto.

CLIMA TENSO

Transcorria o ano de 1938. O mundo, particularmente na Europa e nos Estados Unidos, vivia um clima tenso provocado pela ameaça de um novo conflito mundial. A Alemanha arruinada pelo Tratado de Versailles, ressurgia como potência tecnológica e militar pretendendo ocupação de mais territórios, o chamado “espaço vital”. Nos ares a presença imponente do dirigível Hindenburg com aquela enorme suástica, incomodava enormemente europeus e americanos.

Como se não bastasse, a possibilidade de Marte abrigar vida inteligente, era algo que dividia a opinião dos astrônomos provocando a mais acirrada discussão da história da ciência. Se Marte era habitado, como seriam seus habitantes? Que grau de civilização estariam? Como sobreviviam em um planeta desértico com uma atmosfera extremamente rarefeita, submissos a receber doses letais de radiações solares e do espaço?

E é justamente nos Estados Unidos que surge o maior defensor da presença de habitantes em Marte: Percival Lowell (1855-1916). Diplomata, homem rico, ele abandonou a carreira para construir um grande observatório, o seu “Castelo de Marte” nos altiplanos do norte do Arizona, Flagstaff, munido de uma grande luneta com objetiva de 61 cm de diâmetro. Dedicou sua fortuna e 15 anos de sua vida para estudar Marte. Desenhando centenas de canais, ele defendia a ideia que eram obra de engenharia dos seus habitantes para retirar água dos pólos na irrigação das áreas desérticas.

Até certo ponto, a obstinação de Lowell era explicável: no século XIX, os canais eram de importância crucial para o comercio internacional e o maior deles, o de Suez, constituía uma marca da inteligência humana. Aqui mesmo no Brasil não estamos construindo um canal para levar água do rio São Francisco as regiões áridas do nordeste? Em um futuro longínquo talvez a escassez de água potável não nos leve também a construir uma rede de canais partindo dos pólos? Sendo válido este raciocínio, se os marcianos estariam em um grau avançado de civilização, aquele globo azul com abundante atmosfera e conseqüentemente muita água, não seria a solução para uma migração?

OS MARCIANOS INVADEM A TERRA

Sob o clima tenso já mencionado, na tarde de domingo 30 de outubro de 1938, a crença nos marcianos transformou-se em dura realidade para, pelo menos, 20 milhões de norte-americanos que ouviam através da Rádio CBS de Nova York, no programa Mercury Theatre, uma encenação da “A Guerra dos Mundos”, obra de ficção escrita em 1898 pelo romancista e escritor de ficção científica, Herbert George Wells (1866-1946).

Através de boletins sucessivos, os ouvintes eram informados de que hordas incontroláveis de naves marcianas invadiam a Terra em atitude hostil. As forças armadas do nosso planeta requisitadas para repelir o invasor estavam sendo desmanteladas, destruídas e pulverizadas uma após a outra. Os marcianos, exóticos seres esverdeados de baixa estatura, haviam escolhido New Jersey para seu quartel general. Lançando feixes de raios vermelhos e verdes, as naves invasoras iam minando as defesas penetrando nas cidades e destruindo tudo a sua frente. A evacuação dos grandes centros processava-se como única alternativa.

Orson Welles ensaia pouco antes de transmitir por rádio a sua adaptação de “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells.

Orson Welles ensaia pouco antes de transmitir por rádio a sua adaptação de “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells.

Antes do inicio do programa havia sido feita uma advertência de que o mesmo tratar-se-ia de uma encenação. Contudo muitos pegaram ‘o bonde andando’ e o resultado foi que durante os 45 minutos que durou o programa, a população de Nova York principalmente se envolveu de tal forma, que o pânico se apoderou de mais de um milhão de pessoas que saíram às ruas aterrorizadas com as ‘noticias’ que anunciavam uma invasão marciana e a destruição da cidade. A evacuação da cidade por muitos que temiam ver um marciano em cada esquina, provocou um engarrafamento colossal.

O protagonista da brincadeira que gerou até suicídio e milhares de telefonemas à Rádio, era Orson Welles que se transformaria mais tarde em um dos mais consagrados cineastas que o mundo conheceu. Desnecessário dizer que após o programa, muitos foram a porta da Rádio que viu-se em sérios apuros para convencer seus ouvintes de que tudo não passava de uma encenação. Com medo de ser linchado, Orson Welles teve que sair por uma porta dos fundos!

Muitos sentindo-se prejudicados, moveram processos contra a Radio que ao final saiu-se ilesa devido ao aviso feito antes do programa começar. Refeito o susto, todos puderam respirar aliviados. Mais tarde o tema viu-se transportado as telas sob o mesmo título: “A Guerra dos Mundos”, primeiro em 1953 e depois em 2005, este último sob a direção de S. Spielberg, ambos num estrondoso sucesso de bilheteria.