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Lançamento da New Horizons, em 19 de janeiro de 2006

Você já saiu para ir a algum lugar e chegou a outro, sendo que esse outro continua sendo o mesmo lugar para o qual você ia quando saiu? Leia de novo a pergunta, se for o caso. Quero contar a curiosa situação de uma nave norte-americana que foi lançada para estudar um planeta, não vai sofrer nenhuma alteração de órbita para mudar de destino, mas não vai chegar ao tal planeta. E, ainda assim, vai chegar ao lugar certo, para o qual foi destinada.

Em 19 de janeiro de 2006, a Agência Espacial Americana (NASA) lançou, com sucesso, a missão New Horizons. Seria a primeira espaçonave enviada diretamente para o mais distante planeta do Sistema Solar, e o único que jamais tinha recebido a visita de uma sonda terrestre. Entretanto, sete meses após seu lançamento, quando a New Horizons já estava em seu caminho, o tal último planeta mudou de classificação e tornou-se planeta anão.

Plutão sempre foi um mistério, desde sua descoberta em 1930. Era um planeta pequeno e rochoso que aparecia logo após planetas gigantes e gasosos. Recentemente, graças à melhoria das técnicas de observação, começamos a verificar que após as proximidades da órbita de Netuno existem vários corpos bastante semelhantes a Plutão, inclusive maiores que ele. A existência desses pequenos e gelados objetos já havia sido prevista teoricamente. Eles compõem duas regiões conhecidas como cinturão de Kuiper e como disco disperso.

Assim, surgiu a questão: esses corpos semelhantes a Plutão devem também ser chamados de planetas, uma vez que Plutão o é, ou devemos criar uma nova classificação para eles e colocar o próprio Plutão também nessa nova classificação? Na primeira hipótese, o número de planetas do Sistema Solar sempre aumentaria, pois estamos continuamente observando novos corpos pequenos e distantes. A comunidade astronômica optou por criar a categoria de Planetas Clássicos (Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) e Planetas Anões (Plutão, 2003 UB 313 e outros). Sempre que for utilizada apenas a palavra planeta, fica subentendido que está sendo feita referência aos planetas clássicos.

A New Horizon foi lançada com o prestígio de estar indo ao único planeta que nunca tinha recebido a visita de uma sonda enviada da Terra. Esse prestígio ela não tem mais, pois seu destino não é mais um planeta, mas um planeta anão. OK, mas ela pode ter, então, o prestígio de ser a primeiríssima missão lançada rumo a um planeta anão! Sim, pode até ser a primeira missão lançada para um planeta anão… mas, provavelmente, não vai ser a primeira a chegar a um planeta anão…

O antigo asteróide Ceres é agora também classificado como planeta anão. A NASA lançou em junho de 2007 a missão Dawn, com destino ao Cinturão de Asteroides. A Dawn começou suas atividades estudando o asteroide Vesta em meados de 2011. Se tudo correr como planejado, chegará a Ceres em fevereiro de 2015, cinco meses antes da New Horizon chegar a Plutão.

Parece difícil de acreditar, mas certamente não existe nenhuma conspiração astronômica contra o prestígio da audaciosa New Horizons. Muito pelo contrário! Apesar desses contratempos em seu currículo, a New Horizons promete trazer algumas das melhores imagens já obtidas de regiões tão remotas em nosso Sistema Solar.