Sistemas binários de estrelas, ou estrelas duplas, são bastante comuns em nossa Galáxia. Consistem em duas estrelas conectadas gravitacionalmente de modo que giram uma ao redor da outra, ou, melhor dizendo, orbitam ao redor do centro de massa do conjunto.

Um grupo de Astrônomos, do qual faz parte o brasileiro Leonardo Almeida, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), descobriu um raro sistema binário onde as superfícies das duas estrelas se tocam. Sistemas desse tipo são chamados de binárias de contato.

Representação artística de binárias de contato (ESO)

Representação artística de binárias de contato (ESO)

Denominado VFTS 352, o sistema descoberto encontra-se na nebulosa da Tarântula, uma fértil região de formação estelar a 160 mil anos luz de nós na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia satélite da Via Láctea. As duas estrelas são jovens, e as mais quentes e mais massivas nos sistemas desse tipo até hoje observados.

Cada estrela do sistema VFTS 352 possui um pouco mais de 28 vezes a massa do Sol e temperaturas superficiais de cerca de 40 mil graus Celsius. Para uma comparação, a superfície do Sol tem cerda de 5.500 graus Celsius.

Os centros das duas estrelas estão separados por apenas 12 milhões de quilômetros, uma distância muito pequena em escala estelar, de modo que suas superfícies se superpõem. É muito comum em sistemas binários, mesmo sem contato, quando uma estrela é maior que a outra, haver troca de massas. A estrela maior perde massa externa para a estrela maior, e chama-se essa estrela menor pelo dramático nome de estrela vampira. Esse tipo de troca de matéria superficial não acontece em VFTS 352 porque as duas estrelas tem o mesmo tamanho. Mas material interno das estrelas pode ser trocado e até haver a fusão completa entre elas.

Acredita-se em duas possibilidades para o futuro dessas estrelas. Elas podem realmente fundir e dar origem a uma única estrela gigante, com rápida rotação e forte campo magnético que terminará sua vida em uma forte explosão de super nova dando origem a uma intensa e longa fonte de emissão de raios gama (GRB, da sigla em inglês para gamma-ray burst). Ou elas podem, cada uma, separadamente, também explodir em super nova mas darem origem a um sistema duplo de buracos negros. Teríamos dois buracos negros orbitando um centro de massa comum, prato cheio para o pessoal que busca detectar ondas gravitacionais!

Algumas reportagens na internet chamaram essas estrela de “siamesas”… eu prefiro a analogia com um beijo, porque irmãos siameses nascem juntos, e, me parece, não há razão para supor que essas estrelas tenham exatamente nascidos juntas, coladas, como siameses. Estão juntas em nossas observações atuais, como num beijo.

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Comunicado no ESO (em inglês): http://www.eso.org/public/news/eso1540/

Artigo orginal no Arxiv (em inglês): http://arxiv.org/abs/1509.08940