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Edwin P. Hubble – O Homem que Descobriu o Cosmos

Edwin Powell Hubble

(Tradução do original publicado em spacetelescope.org)

“Eu sabia que, mesmo que eu tivesse uma segunda ou terceira repreensão, era a Astronomia que importava”.
Esta frase, escrita por Edwin Hubble lembrando sua juventude, nos conta muito sobre o homem que, no devido tempo, quebrou a promessa feita a seu pai e seguiu o caminho ditado por sua paixão.
Como resultado do trabalho de Hubble, nossa percepção do lugar da humanidade no Universo mudou para sempre: os humanos foram mais uma vez “retirados” do centro do Universo. Quando os cientistas decidiram nomear o Telescópio Espacial com o nome do fundador da cosmologia moderna, a escolha não poderia ter sido mais apropriada.

Um estudante que prometia

Edwin Hubble nasceu no Missouri em 1889, filho de um executivo do ramo de seguros, e mudou-se para Chicago, nove anos depois. Na sua graduação do ensino médio em 1906, o diretor disse: “Edwin Hubble, eu te observei por quatro anos e nunca vi você estudar por dez minutos”. Ele fez uma pausa, deixando o jovem Edwin em suspense, antes de continuar: “Aqui está uma bolsa de estudos para a Universidade de Chicago”.
Essa bolsa de estudos do ensino médio também foi concedida a outro aluno por engano, de forma que o dinheiro teve que ser dividido pela metade e Edwin teve que fornecer o resto. Ele pagou suas despesas trabalhando como instrutor durante o verão e, em seu primeiro ano, obtendo uma bolsa de estudos em Física e trabalhando como assistente de laboratório. Ele finalmente obteve um diploma em Matemática e Astronomia no ano de 1910.

Pós-graduado em Oxford

Um jovem alto e vigoroso, Hubble adorava o basquete e o boxe, e a combinação de habilidade atlética e habilidade acadêmica lhe valeu uma bolsa de estudo Rhodes para a Universidade de Oxford. Lá, uma promessa feita a seu pai moribundo, que nunca aceitou a paixão de Edwin pela Astronomia, levou-o a estudar Direito ao invés de uma especialização científica, embora ele também estudasse Literatura e Espanhol.
Ele estudou Lei romana e Inglesa em Oxford, e retornou aos Estados Unidos apenas em 1913. Passou no exame para a Ordem dos Advogados local, e exerceu a Advocacia, sem entusiasmo, por um ano no Kentucky, onde sua família estava morando.

O amado professor e treinador do ensino médio

Ele também foi contratado pela New Albany High School (New Albany, Indiana) no outono de 1913 para ensinar Espanhol, Física e Matemática, e treinar basquete. Sua popularidade como professor foi registrada no anuário da escola, dedicado a ele: “Para o nosso amado professor de Espanhol e Física, que foi para nós um amigo leal em nosso último ano, sempre disposto a nos animar e a nos ajudar, tanto na escola como no campo, a classe de 1914 dedica amorosamente este livro “.
Quando o período letivo terminou, em maio de 1914, Hubble decidiu perseguir sua primeira paixão e retornou à universidade, como estudante graduado, para estudar mais Astronomia.

Início de uma nova era

O famoso astrofísico britânico Stephen Hawking escreveu em seu livro “Uma Breve História do Tempo” que a “descoberta de Hubble de que o Universo está se expandindo foi uma das grandes revoluções intelectuais do século XX”. Quem poderia adivinhar esse futuro para Edwin quando ele começou seu doutorado em Astronomia na Universidade de Chicago, em 1914 ?

A guerra adia a estréia astronômica de Hubble

No início de 1917, enquanto ainda terminava o trabalho para o seu doutorado, Hubble foi convidado por George Ellery Hale, fundador do Mount Wilson Observatory, em Pasadena, Califórnia, para se juntar à equipe de lá. Esta foi uma ótima oportunidade, mas veio no abril de um ano terrível. Depois de sentar-se a noite toda para terminar sua tese de doutorado e fazer exame da prova oral na manhã seguinte, Hubble se alistou na infantaria e telegrafou para Hale: “Lamento não poder aceitar seu convite. Estou indo para a guerra.”

Ele serviu na França e depois retornou aos Estados Unidos em 1919, indo imediatamente ao Observatório de Mount Wilson. Lá o recém-dispensado Major Hubble, como ele invariavelmente se apresentava, chegou, ainda em seu uniforme, mas pronto para começar as observações.

Hubble teve a sorte de estar no lugar certo, no momento certo. O Mount Wilson era o centro das tarefas de observação, dando suporte à nova Astrofísica, mais tarde chamada Cosmologia. E o Telescópio Hooker, de 100 polegadas, então o mais poderoso da Terra, acabara de ser terminado e instalado, após quase uma década de trabalho.

Naquele observatório, Hubble encontrou seu maior rival científico, Harlow Shapley, que já havia feito sua reputação ao medir o tamanho da Via Láctea, nossa própria Galáxia. Shapley usou um método iniciado por Henrietta Leavitt, no Harvard College Observatory, que dependia do comportamento de variações de luz padronizadas de estrelas brilhantes chamadas de variáveis Cefeidas, para estabelecer a distância de um objeto no espaço.

Seu resultado de 300.000 anos-luz para a largura da galáxia foi aproximadamente 10 vezes o valor previamente aceito. No entanto, Shapley, como a maioria dos astrônomos da época, ainda pensava que a Via Láctea era tudo o que havia para o Universo. Apesar de uma sugestão feita pela primeira vez por William Herschel no século 18, ele compartilhou a visão aceita de que todas as nebulosas eram objetos relativamente próximos e apenas manchas de pó e gás no céu.

O ponto de inflexão

Hubble teve que passar muitas noites amargamente frias, sentado no poderoso telescópio Hooker, antes que ele pudesse provar que Shapley estava errado. Em outubro de 1923 ele descobriu e imaginou, inicialmente, que era uma nova estrela a que brilhava dramaticamente na “nebulosa” M31 da constelação de Andromeda. Após um exame cuidadoso de placas fotográficas da mesma área, tomadas anteriormente por outros astrônomos, incluindo Shapley, ele percebeu que era uma estrela Cefeida. Hubble usou o método de Shapley para medir a distância até essa nova estrela. Ele poderia então colocar a M31 a um milhão de anos-luz de distância – muito além da Via Láctea, e sendo ela uma galáxia contendo milhões de estrelas. O Universo conhecido se expandiu drasticamente naquele dia e – em certo sentido – o próprio Cosmos fora descoberto !

Até o New York Times daquele dia percebeu a importância da notícia: “Descobriu-se que as nebulosas em espiral são sistemas estelares. O doutor Hubbel confirma a visão de que elas são ‘universos-ilha’ semelhantes ao nosso.”

Apenas o começo

Esta descoberta foi de grande importância para o mundo astronômico, mas o maior momento de Hubble ainda estava por vir. Ele começou a classificar todas as nebulosas conhecidas e medir suas velocidades a partir dos espectros de sua luz emitida. Em 1929, ele fez outra descoberta surpreendente – todas as galáxias pareciam estar se afastando de nós com velocidades que aumentavam em proporção à sua distância – uma relação agora conhecida como Lei de Hubble.

Essa descoberta foi um enorme avanço para a astronomia da época, pois derrubou a visão convencional de um Universo estático e mostrou que ele próprio estava se expandindo. Mais de uma década antes, o próprio Einstein se curvou à sabedoria observacional da época, e corrigiu suas equações, que originalmente prediziam um Universo em expansão. Agora Hubble demonstrava que Einstein estava certo, em sua primeira versão.

E o físico, já idoso e mundialmente famoso, foi a Mount Wilson especialmente para visitar Hubble e expressar sua gratidão. Ele chamou a mudança original de suas queridas equações “o maior erro da minha vida”.

Outra guerra faz Hubble parar, novamente

Hubble trabalhou infatigavelmente em Mount Wilson até o verão de 1942, quando saiu para servir na Segunda Guerra Mundial. Ele recebeu a Medalha do Mérito em 1946. E, finalmente, voltou ao Observatório. Sua última grande contribuição para a Astronomia foi uma atuação central no projeto e construção do Telescópio Hale de 200 polegadas, no Monte Palomar. Quatro vezes mais poderoso que o Hooker, o Hale seria o maior telescópio da Terra por muitas décadas. Em 1949, Hubble foi homenageado ao ser o primeiro a usar o novo telescópio.

Um astrônomo sem Prêmio Nobel

Durante sua vida, Hubble tentou obter o Prêmio Nobel, até mesmo contratando um agente de publicidade para promover sua causa, no final da década de 1940. Mas todo o esforço foi em vão, pois não havia a categoria “Astronomia”. Hubble morreu em 1953 enquanto se preparava para várias noites de observações, sua última grande ambição não cumprida.
Ele teria ficado emocionado se soubesse que o telescópio espacial iria ter o nome dele, e foi construído para que os astrônomos possam continuar a ter a “expectativa de encontrar algo que não esperávamos”, como ele disse em 1948 durante uma transmissão da BBC em Londres.

Por Ronaldo R A Câmara

Sou Engenheiro Mecânico, formado pela PUC-RJ, tendo atuado mais de 20 anos na área de projetos industriais. Concursado da Petrobras no ano de 2000, trabalho em estudos e pareceres técnicos para sistemas de processo/utilidades dos Terminais da subsidiária Transpetro, que envolvem tubulações e equipamentos mecânicos.

Astrônomo amador (e marceneiro) desde os 14 anos de idade, quando construí minha primeira luneta e seu tripé, iniciei também uma coleção de livros e mapas celestes. Fui bolsista do CNPq no Observatório Nacional por três anos, na época da faculdade, sob a supervisão do mestre Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, que era astrônomo-chefe da instituição.

Atualmente tenho um telescópio Schmidt-Cassegrain de 180 mm de abertura, com o qual procuro observar da minha varanda planetas e objetos do céu profundo, sempre que o céu da cidade maravilhosa permite.

Nome completo: Ronaldo Ribeiro de Arruda Câmara
Nascimento: 06/02/1951
Naturalidade: São Paulo - SP / Residência: Rio de Janeiro – RJ
Email: [email protected]