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Dois Tipos de Aglomerados

Durante vários meses, podemos ver alto no céu noturno do hemisfério Sul a famosa constelação do Cruzeiro do Sul. Essa, apesar de ser a menor das 88 constelações, é também uma das mais fáceis de serem identificadas. E quase contornando o Cruzeiro do Sul, está o Centauro. Nessas constelações encontramos dois objetos notáveis por sua beleza e pela quantidade de informações que podem nos dar sobre a evolução das estrelas e de nossa Galáxia. São dois aglomerados estelares que aparecem indicados na figura abaixo.

Abertos ou globulares, são  grandes fontes de informação sobre evolução estelar e galáctica.

Durante vários meses, podemos ver alto no céu noturno do hemisfério Sul a famosa constelação do Cruzeiro do Sul. Essa, apesar de ser a menor das 88 constelações, é também uma das mais fáceis de serem identificadas. E quase contornando o Cruzeiro do Sul, está o Centauro. Nessas constelações encontramos dois objetos notáveis por sua beleza e pela quantidade de informações que podem nos dar sobre a evolução das estrelas e de nossa Galáxia. São dois aglomerados estelares que aparecem indicados na figura abaixo.

Localização no céu de Caixinha de Jóias e Omega Centauri (imagem produzida com o software livre Kstars, para Linux)

Aglomerados são conjuntos de estrelas que se mantêm juntas por atração gravitacional. Podem ser de dois tipos: aglomerados globulares e aglomerados abertos.

Nas proximidades da estrela que marca uma das extremidades da haste menor do Cruzeiro do Sul, um pequeno binóculo ou uma luneta simples nos permite observar o aglomerado aberto catalogado como NGC 4755, mas que também atende pelo simpático nome de Caixinha de Jóias. O aglomerado recebeu esse nome popular porque é fácil perceber as cores bastante diferentes de suas estrelas.

As estrelas de um aglomerado aberto nasceram de uma mesma nebulosa original. Mas nem por isso evoluíram da mesma maneira, como nos indica a variedade de cores da Caixinha de Jóias. A cor de uma estrela está associada a sua temperatura: mais quentes são mais azuladas e mais frias são mais avermelhadas.

Caixinha de Jóias, NGC 4755 (http://seds.org/messier/xtra/ngc/n5139.html)

 

Assim, não temos apenas um belo conjunto coloridinho de estrelas para observar, mas, principalmente, um conjunto de estrelas que pode nos dar muitas informações sobre evolução estelar. Essas estrelas em diferentes estágios de evolução têm a mesma idade e nasceram com composições químicas idênticas, uma vez que nasceram da mesma nebulosa. Presume-se que apenas as massas fossem diferentes no início. Dessa forma, com estrelas de um conjunto como esse, podemos estudar como a massa inicial interfere na evolução de uma estrela. Sabemos hoje que estrelas mais massivas evoluem mais rápido, ou seja, vivem menos que estrelas de menos massa.

Num aglomerado aberto as estrelas encontram-se espalhadas desordenadamente, e são estrelas bastante jovens. As estrelas da Caixinha de Jóias têm apenas pouco mais de sete milhões de anos – verdadeiros bebês em escala de tempo astronômico.

Podemos encontrar facilmente sem telescópio outros dois aglomerados abertos no céu, na constelação do Touro. Essa constelação é fácil de se identificar nas noites de verão no hemisfério Sul, por ficar bem próxima ao asterismo conhecido no Brasil como Três Marias. Basta seguirmos o alinhamento das Três Marias como na figura a seguir:

Alinhamento para encontrarmos as Hyades e as Plêiades a partir das Três Marias (imagem produzida com o software livre Kstars, para Linux)

 

A formação que marca o focinho do Touro é o aglomerado das Hyades. Nas proximidades está o aglomerado das Plêiades, que se apresenta bem mais compacto que as Hyades.

Hyades, fotografada por Todd Vance, com uma máquina Canon EOS Digital Rebel XTi. Foram feitas 20 imagens com 2 segundos de exposição cada uma – F/5.6, 55mm de distância focal, filme ISO-400, em 20 de dezembro de 2006, às 7:36pm EST (http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Hyades-small.jpg)
Plêiades – Repare que podemos ver ainda restos da nebulosa que deu origem ao aglomerado (Crédito: NASA/ESA/AURA/Caltech – http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Pleiades_large.jpg)

 

Na constelação do Centauro, está um outro aglomerado bastante diferente da Caixinha de Jóias, das Hyades e das Plêiades. É o NGC 5139, também conhecido como Omega Centauri. Esse é um aglomerado globular que podemos ver a olho nu em um local com céu bem escuro, afastado de qualquer grande cidade. Omega Centauri aparece como uma pequena mancha esbranquiçada no céu.

Os aglomerados globulares possuem bem mais estrelas que os aglomerados abertos. As suas estrelas são as mais antigas da Galáxia e estão mais fortemente ligadas gravitacionalmente que as dos aglomerados abertos. Nos aglomerados globulares, as estrelas distribuem-se esfericamente, criando o aspecto de globo.

 

Omega Centauri (http://seds.org/messier/xtra/ngc/n5139.html)

 

Não existem muitos aglomerados globulares em nossa Galáxia: conhecemos cerca de 150 deles enquanto conhecemos mais de mil aglomerados abertos. Os aglomerados globulares estão distribuídos pela região conhecida como halo galáctico. Não sabemos bem como esses aglomerados se formaram, mas sabemos que sua distribuição peculiar pela Galáxia está relacionada com a formação da própria Galáxia.

Esquema da distribuição dos aglomerados globulares na nossa Galáxia. As regiões hachuradas mostram direções de difícil observação devido a nossa posição na Galáxia (Figura do livro Astronomia e Astrofísica editado por Walter Maciel, ed. IAG/USP)

 

Enquanto a Caixinha de Jóias é um bebê astronômico, Omega Centauri é bem mais crescidinho, com cerca de 12 bilhões de anos. Dois objetos bonitos de se observar e, como muitos astros em nosso Universo, cheios de segredos a serem descobertos.

Por Leandro L S Guedes

Astrônomo, Diretor de Astronomia da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, Msc., Dr., Astrofísica Extragaláctica, História e Filosofia da Ciência.