Pois é, numa época em que temos tanta informação sobre o efeito da alimentação e do estresse em nossa saúde, é curioso encontrar uma associação entre a concentração de sódio e o tempo de vida de uma estrela.

Toda a química do Universo evolui através das estrelas. Quando uma estrela morre, ela devolve ao Universo elementos químicos que foram criados em seu interior. As novas estrelas que podem surgir agregando o material remanescente de estrelas mais antigas terão uma química mais complexa e rica. É  com esse enriquecimento químico produzido pelas estrelas que surgem, por exemplo, os elementos fundamentais para a vida.

Aglomerado Globular NGC 6752, na constelação do Pavão. (Fonte: ESO)

Aglomerado Globular NGC 6752, na constelação do Pavão. (Fonte: ESO)

E a teoria estabelecida de evolução estelar previa que estrelas com massa de 0,6 até 10 massas solares passavam  obrigatoriamente por um estágio conhecido como ramo assintótico das gigantes, ou AGB (sigla do inglês asymptotic giant branch). Esse nome é uma referência à posição da estrela no diagrama de Hertzsprung–Russell, um gráfico que relaciona brilho e cor (ou temperatura) das estrelas. Durante sua vida, o brilho e a cor de uma estrela variam e, logo, sua posição no diagrama de Hertzsprung–Russell também muda.

Mas um recente estudo com estrelas do aglomerado globular NGC 6752, na constelação do Pavão, mostrou que estrelas com maiores concentrações de sódio parecem pular a fase de AGB e se tornarem diretamente uma anã branca de hélio, um objeto que já não mais produz a energia que produzia, e que esfriará com o tempo.

Esquema mostrando algumas das diferentes partes do diagrama de Hertzsprung–Russell. Fonte:

Esquema mostrando algumas das diferentes partes do diagrama de Hertzsprung–Russell. (Fonte)

Num aglomerado globular, quase todas as estrelas se formaram ao mesmo tempo, ou seja, com a mesma química, mas podem existir estrelas que se formaram num estágio posterior. Normalmente um aglomerado desse tipo pode ter estrelas de duas ou três gerações, com diferentes concentrações de elementos leves como carbono, nitrogênio e sódio. O que os cientistas perceberam no NGC 6752, é que todas as AGB`s eram estrelas de primeira geração com baixíssimas concentrações de sódio. Nenhuma estrela de segunda geração havia se tornado uma AGB.

Um dos autores do estudo, Simon Campbell, disse que “parece que as estrelas precisam ter uma ‘dieta’ com baixos níveis de sódio para atingirem a fase de AGB em idade avançada. Essa observação é importante por vária razões. Essas estrelas são as mais brilhantes estrelas em aglomerados globulares – então existirá 70% menos das estrelas mais brilhantes do que a teoria prediz.”.

Estimar o número de estrelas de acordo com o brilho é fundamental para se conhecer e modelar aglomerados e galáxias, portanto, uma mudança no conhecimento da quantidade de estrelas mais brilhantes pode realmente ter consequências interessantes.

Mas, evidentemente, esse estudo envolveu apenas um aglomerado e os resultados precisam ser verificados com outras estrelas antes de gerar alguma modificação na teoria aceita de evolução estelar. Como tudo na ciência, vamos com calma. E, para ter calma, nada melhor que ingerir pouco sódio.

Para Ler Mais: 

Artigo científico original na NATURE (em inglês): http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature12191.html

ESO (em inglês): http://www.eso.org/public/news/eso1323/

Obs: Nessa página do ESO, Simon Campbell diz que todas as estrelas passam pelo estágio de AGB, mas isso não ;e compatível com o modelo de evolução estelar aceito, que diz que apenas estrelas com massa entre 0,6 e 10 massas solares passam por esse estágio. Provavelmente ele estava se referindo a todas que possuem mais que 0,5 massas solares, ou apenas às estrelas de seu próprio trabalho.