Você já viu aqueles casulos que servem como capas protetoras para alguns insetos em um determinado estágio de seu desenvolvimento? Se não fosse por causa de casulos desse tipo não teríamos bonitas borboletas enfeitando jardins. Bom, também não teríamos outros insetos não tão bonitos e às vezes bastante desagradáveis e inconvenientes para nós humanos. Mas o ponto interessante é que temos casulos semelhantes no espaço, que, em vez de importantes para insetos, são importantes para o desenvolvimento de estrelas.

As estrelas nascem a partir de nuvens brilhantes de gás e poeira, chamadas regiões de H II. Essas regiões são um tipo de nebulosas chamadas nebulosas de emissão. Dependendo basicamente da densidade e do movimento intrínseco da nuvem , ela pode dar origem a estrelas, e recebe o bonito apelido de berçário de estrelas ou região de formação estelar . Uma região de formação estelar que pode ser vista sem telescópio em um céu sem nuvens é a nebulosa de Órion, que aparece como uma manchinha esbranquiçada nas proximidades das Três Marias.
O processo de formação de uma estrela tem início quando a nebulosa sofre uma perturbação gravitacional, que pode ser causada, por exemplo, pela explosão de uma supernova nas proximidades. Essa perturbação faz com que porções da nuvem comecem a se contrair. As porções em contração formam regiões escuras que se tornam gradativamente mais densas que o ambiente ao redor, e em algumas dessas bolsas, ou casulos escuros, se formarão estrelas.

O primeiro a observar essas regiões escuras nas brilhantes nebulosas de emissão foi o astrônomo holandês naturalizado norte-americano Bart Jan Bok (1906-1983). Em um artigo publicado em 1947, Bok lança a hipótese de que aquelas regiões escuras seriam “similares a casulos de insetos”, que estavam sob processo de contração gravitacional para formar novas estrelas. Esses casulos estelares foram batizados de g lóbulos de Bok . Era difícil verificar o que acontecia dentro de um glóbulo de Bok porque eles são escuros, e não há luz visível saindo deles. Apenas em 1990 observações no infravermelho comprovaram que havia estrelas nascendo nessas regiões.

De fato, estrelas nascem em glóbulos de Bok, mas nem todo glóbulo de Bok dá origem a uma estrela. Muitos estão estáveis e não possuem massa suficiente para a formação estelar. Naqueles onde estrelas nascem, a recém-nascida só aparece aos nossos olhos quando começa a brilhar e a pressão da radiação emitida espalha o material escuro do casulo que ocultou de nós as preciosas fases iniciais do nascimento de uma estrela.
Sempre que falamos do nascimento de uma estrela estamos falando também na possibilidade do nascimento de planetas e, consequentemente, também na possibilidade do nascimento de vida. Há cerca de quatro bilhões e meio de anos, um glóbulo de Bok muito especial deu origem a uma estrela aparentemente simples, sem nada de muito notável, exceto por um planeta azul onde surgiu vida. E aqui estamos nós tentando descobrir como as estrelas nascem, e, com elas, planetas e vida.
Às vezes, observando o céu noturno num local afastado das cidades, mergulhados nas muitas questões astronômicas, somos perturbados por insetos inconvenientes que se desenvolveram em casulos. Em contrapartida, durante o dia podemos apreciar borboletas voando. E essa época de fim de ano é extremamente propícia para sentirmos orgulho dessa incrível e muito divertida variedade de vida da qual fazemos parte!
Uma versão resumida desse texto foi publicada em dezembro de 2008 na Curiosidade do Mês no folder e site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro