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História e Filosofia

Diana, a Deusa da Caça

Diana, de Houdon, no Museu do Louvre
Diana, de Houdon, no Museu do Louvre

Em tempos antigos, para muitas civilizações, o domínio da língua escrita era privilégio de poucos. Sem a facilidade das letras, o conhecimento era transmitido boca a boca. Uma excelente maneira encontrada para comunicar o que se sabia sobre o céu era contar histórias. Assim, sob o céu estrelado das noites de um tempo em que não se conhecia poluição luminosa, os mais velhos contavam histórias para os mais jovens, histórias que nem mesmo os contadores conheciam as origens. As mitologias de vários povos se entrelaçaram ao longo do tempo.

Nesse mês de fevereiro, podemos ver alto no céu a constelação do Órion, o caçador, com as notáveis Três Marias formando o que seria seu cinturão. Em algum momento do passado, com o rosto iluminado pelas chamas de uma fogueira, um ancião contou para um grupo de jovens atentos que a deusa da caça, Diana – Artemis na mitologia grega, que decidira não se casar, sentiu certa atração pelo caçador Órion, filho de Netuno, deus dos mares. O enciumado irmão gêmeo da deusa, Apolo, desafiou-a a acertar uma flecha em um distante ponto no mar. Empunhando seu arco de prata, Diana acertou em cheio o alvo. Os jovens na fogueira, boquiabertos e com olhos arregalados, prenderam a respiração… o ancião fez uma pausa… os observava misteriosamente… O mar trouxe à terra o corpo de Órion, e Diana, descobrindo a tragédia, conseguiu do pai Júpiter, o deus dos deuses – Zeus na mitologia grega, que Órion fosse colocado no céu sob a forma de constelação.

Existem muitas histórias mitológicas com semelhante carga dramática. Uma outra passagem relativa à própria Diana diz que ela, sempre extremamente zelosa por sua castidade, transformou em cervo o caçador Actéon por tê-la visto durante o banho. Actéon foi devorado por sua própria matilha.

A Astronomia moderna manteve a tradição de batizar astros com nomes mitológicos, assim como alguns acidentes geográficos. Apesar de não ser uma das oitenta e oito constelações que dividem nosso céu, encontramos Diana em vários lugares. Em Vênus, há um precipício de cerca de 7km na parte mais extensa chamado Diana. O astrônomo alemão Karl Theodor Robert Luther descobriu, em 1863, o asteróide hoje conhecido como 78 Diana, que tem cerca de 120km de diâmetro. Na Lua há uma cratera de 2km também com o nome da deusa romana da caça.

Uma outra história de Órion diz que ele declarou ser capaz de caçar qualquer animal. Isso despertou a fúria de Gaia, a deusa da Terra, que lhe enviou um escorpião gigante. Órion foi mortalmente atingido pelo monstro. No céu, vemos que quando a constelação do Escorpião surge, na região oposta da esfera celeste está se pondo Órion. Mas Ofiúco deu ao caçador um antídoto, e quando Escorpião se põe, seguido por Ofiúco, surge o caçador revigorado na região oposta. Moral da história: se você estiver vendo o Escorpião no céu, não irá ver as Três Marias, e se estiver vendo as Três Marias, não verá o Escorpião.

Nem mesmo pernilongos são capazes de acabar com o encanto de uma boa história contada em uma noite estrelada. As mitologias podem trazer metáforas interessantes, como a história da ninfa Eco, favorita de Diana, que, após enganar Juno, foi condenada por ela a ser incapaz de usar a voz, senão para repetir a última palavra que ouvia. Procure conhecer histórias, mitológicas ou não, adequadas para compartilhar com amigos ao redor de uma fogueira sob um céu estrelado. Experimente. Mas, por via das dúvidas, leve um repelente.

Diana e suas Ninfas Surpreendidas por Sátiros, de Peter Paul Rubens, no Museu do Prado
Diana e suas Ninfas Surpreendidas por Sátiros, de Peter Paul Rubens, no Museu do Prado

Uma versão resumida desse texto foi publicada em fevereiro de 2006 na Curiosidade do Mês no folder e site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro

Por Leandro L S Guedes

Astrônomo, Diretor de Astronomia da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, Msc., Dr., Astrofísica Extragaláctica, História e Filosofia da Ciência.