Durante a celebração de uma missa no dia da Epifânia desse ano, 2011,o papa Bento XVI declarou, redundantemente, que “’O Universo não é fruto do acaso, como alguns querem que acreditemos”. Digo redundantemente porque essa é a posição da Igreja Católica que defende a criação do Universo por Deus. Não há novidade nenhuma em ouvi isso do papa mas, ainda assim, essa declaração foi notícia em diversos jornais, como no portal G1.
O que mais me chama a atenção nessa declaração foi a parte do “alguns querem que acreditemos”. Talvez o papa tenha se referido aos ativistas modernos em prol do ateísmo materialista fundamentalista – desculpe a rima – , que tem conseguido arrebanhar cada vez mais ovelhas. Talvez Richard Dawkins seja um dos mais conhecidos lideres ateus atuais – desculpe o trocadilho. Muitos desses movimentos ateístas acabam caindo no mesmo fundamentalismo de alguns seguimentos religiosos e podem ser vistos, sim, como verdadeiras seitas.
Mas existem os cientistas ateus que não “querem” que os cristãos acreditem em algo específico. Eles apresentam explicações de fenômenos naturais sem o Deus criado pela maioria das religiões. É isso o que a Ciência faz.
Houve uma outra declaração do papa segundo o G1, que vale comentários. Segundo o site, Bento disse que algumas teorias científicas são “mentalmente limitadoras” porque “chegam apenas até certo ponto … e não conseguem explicar a realidade última…”.
Duas das muitas possíveis visões sobre a relação entre a natureza e a realidade são o Realismo e o Positivismo. Os realista acreditam que a Ciência pode encontrar essa realidade última a que se refere o papa Bento XVI, e que as descrições científicas são retratos fiéis da natureza. Alguns cientistas realistas foram Galileu, Boltzman e Einstein. O Positivismo na Ciência (não confundir com o Positivismo nas artes), passou por muitas modificações ao longo da História. Ele entende que a Ciência não conseguiria jamais chegar à realidade última, mas fazer representações. O modelo de átomo de Bohr, por exemplo, é apenas um modelo que representa um átomo como sendo uma bolinha central, o núcleo atômico, circundada por diversas bolinhas, os elétrons em suas órbitas. Toda mecânica quântica funciona baseada no modelo de átomo de Bohr, mas sabemos com toda certeza que um átomo não é um conjunto de bolinhas girando em torno de alguma bolinha central.
Para os realistas, a gravidade deve ser explicada ou pela força gravitacional estabelecida por Isaac Newton, ou pela distorção do espaço-tempo estabelecida por Albert Einstein. Para os positivistas, ambas as explicações são satisfatórias, porque representam a gravidade em situações diferentes. Para eles, são dois modelos diferentes que representam uma mesma realidade física inalcançável
Podemos dizer hoje que a ciência é essencialmente positivista. A declaração do papa mostra que ele tem uma visão realista da Ciência, o que é lamentável. Essa visão não sobreviveu depois do início do século XX.
Me parece que João Paulo II tinha um verdadeiro espírito conciliador e nunca buscou fomentar separação entre ciência e religião como se fosse arquiinimigas. São áreas do conhecimento completamente diferentes e tão inimigas como a literatura deve ser inimiga das artes plásticas ou dos jogos de golfe.
Esse post foi publicado no blog E Agora?, em 05 de maio de 2011.