Durante séculos especulou-se sobre a existência de planetas orbitando outras estrelas, da mesma forma que os planetas do Sistema Solar orbitam em torno do Sol. Apenas na década de 1990 foi confirmada a existência desses chamados planetas extrassolares, ou exoplanetas.

Até agora, meados de 2006, cerca de 200 planetas extrassolares foram detectados. A observação desses planetas é bastante difícil, e só se tornou possível graças ao avanço da tecnologia das observações astronômicas, que nos permitiu obter dados com maior precisão. Atualmente, contamos com seis diferentes métodos de detecção de planetas extrassolares.

O mais difícil de todos os métodos é a observação direta. Seria ótimo sermos capazes de apontar um telescópio para uma estrela e conseguir observar diretamente os planetas que a orbitam, mas isso é extremamente difícil. Lembre-se de que um planeta é bem menor que uma estrela e, sem brilho, normalmente é ofuscado pelo brilho da estrela. Esse método funciona para observar planetas muito grandes (maiores que Júpiter) e que estejam bastante afastados da estrela, como é o caso de 2M1207b, que orbita a anã marrom 2M1207, na constelação da Hydra (ver imagem abaixo).

Outros métodos baseiam-se em medir a alteração na posição da estrela causada pelo movimento planetário ao seu redor. Dizemos que um planeta gira em torno da estrela, mas, na verdade, estrela e planeta giram em torno de um ponto comum chamado de centro de massa. Como, em geral, a massa da estrela é muito maior que a massa de qualquer planeta, o centro de massa do conjunto está muito próximo do centro da estrela. Assim, enquanto o planeta executa seu movimento ao redor da estrela, ainda que não possamos observar o planeta propriamente dito, podemos tentar medir o deslocamento que ele provoca na estrela, fazendo-a girar em torno do centro de massa do sistema estrela-planeta.

Esse deslocamento pode ser obtido medindo-se variações na posição da estrela, através de medidas diretas de sua posição no céu. Essas variações são extremamente sutis, e só podem ser obtidas quando um planeta bastante massivo é o responsável pelo bamboleio da estrela. A área da Astronomia que mede a posição de astros no céu chama-se Astrometria.

Dependendo da posição da órbita planetária, podemos medir o deslocamento da estrela através do efeito doppler (ver artigo “Efeito Doppler”, Facção Científica de maio de 2006). Se o deslocamento ao redor do centro de massa faz com que a estrela se aproxime e se afaste de nós, veremos sua luz mais azulada quando ela estiver se aproximando, e mais avermelhada quando ela estiver se afastando.

Nos casos particulares de pulsares – estrelas de nêutrons que emitem raios-X com grande regularidade –, podemos medir a variação de posição provocada pela presença de um planeta ainda de uma terceira forma: através de pequenas variações no intervalo de tempo entre os pulsos. Através desse método, foi feita a primeira confirmação da existência de planetas extrassolares,em 1992, no pulsar PSR 1257+12, na constelação da Virgem.

Uma técnica que não está relacionada com variação da posição da estrela é a observação da variação da luminosidade da estrela, provocada pela passagem de um planeta na sua frente. Se um planeta girar em torno de sua estrela numa órbita posicionada de tal maneira que eventualmente ele passe exatamente entre a linha de visada que une Terra à estrela, é possível observarmos uma pequena redução do brilho da estrela. Quando o planeta passa na frente da estrela, o brilho diminui e volta a aumentar quando ele desobstrui o caminho da luz. O tempo entre as variações fornece diretamente o período da revolução do planeta (a revolução da Terra ao redor do Sol dura um ano, aproximadamente 365 dias e 6 horas).

Esses métodos funcionam bem, como vimos, para detecção de planetas grandes e massivos. Entretanto, podemos utilizar as chamadas microlentes gravitacionais para detectar planetas com massa semelhante à da Terra. Esse método utiliza a distorção do espaço provocada por qualquer corpo com massa, que provoca um deslocamento na luz vinda de um objeto situado atrás dele. Assim, quando um planeta que orbita uma estrela se posiciona de tal maneira a alterar a trajetória dos raios de luz vindos de uma outra estrela mais distante, acontece a microlente gravitacional. O conhecimento do efeito das lentes gravitacionais e das microlentes gravitacionais se deu graças ao desenvolvimento da Relatividade Geral de Albert Einstein.

Um outro método para detecção de planetas extrassolares é o estudo de discos de poeira que circundam algumas estrelas. Muitos sistemas planetários possuem uma quantidade significativa de poeira distribuída de modo a formar um disco ao redor da estrela. Essa poeira é material deixado por cometas e também restos de colisões entre asteróides, asteróides e planetas ou mesmo entre planetas. Aqui no Sistema Solar, essa poeira provoca as chuvas de meteoros e a chamada luz zodiacal. Observando esse disco de poeira, podemos notar variações de densidade e distorções, causadas por interação gravitacional com possíveis planetas.

A descoberta dos planetas extrassolares trouxe à tona novamente a discussão científica sobre vida fora da Terra. A corrida agora é para encontrar algum planeta que possa abrigar vida como conhecemos aqui na Terra, ou seja, procuramos um planeta semelhante à Terra que orbite uma estrela semelhante ao Sol, e que tenha uma lua parecida com a nossa Lua. A Lua tem um papel importante na existência da vida em nosso planeta, pois é ela que mantém uma certa estabilidade do eixo de rotação da Terra.

As opiniões na Astronomia estão divididas. Alguns astrônomos acham que será praticamente impossível encontrar outro lugar no Universo que possa abrigar vida desenvolvida como na Terra. Outros acham que é apenas questão de tempo até encontrarmos vários desses lugares. Afinal, estimamos hoje que nossa galáxia tenha cerca de 400 bilhões de estrelas. Se muitas dessas estrelas têm planetas, o número de planetas na Via Láctea é muito grande. Isso sem falar nos planetas que orbitam estrelas em outras galáxias, pois, como vimos, já é difícil o bastante encontrarmos planetas em estrelas próximas. Uma coisa é certa: os cerca de 200 planetas extrassolares conhecidos atualmente (meados de 2006) são muito poucos frente ao número de planetas que ainda não detectamos.

E de que lado você está? Sua intuição diz que o desenvolvimento da vida é exclusividade da Terra, ou que a vida é algo comum no Universo? E uma questão ética surge: caso encontremos uma civilização tecnologicamente desenvolvida, devemos entrar em contato? Devemos interferir em sua trajetória evolutiva? Como sempre aconteceu na ciência, quanto mais conhecemos, mais perguntas surgem.

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A anã marrom 2M1207 e o seu planeta 2M1207b (o planeta é o corpo menor)


Publicado por Leandro L S Guedes

Sou Astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, faço doutorado no curso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, pela UFRJ, e nesse ano de 2013 estou passando alguns meses na Universidade de Notre Dame, EUA. Tenho interesses em: Astronomia, História, Epistemologia, Filosofia da Ciência.

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